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Terça-feira, 7 de dezembro de 2021

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Boletim n°13 - Dez. 2008
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Excursão à Patagônia Argentina


Foram muitas as vezes em que, no Clube e fora dele, paramos tudo o que estávamos fazendo para ouvir o Santa Cruz contar suas passagens pela Patagônia. A Terra do Fogo, dona dos ventos mais musicais do mundo, de fauna e flora contempladas pelo universo, com divina beleza selvagem.

O janeiro de 2007 apresentava seus dias de maneira nada paulatina, impressionando-nos a velocidade com a qual a noite caía, seguida quase que imediatamente pelo Sol, que por mais que nos presenteasse com mais um dia lindo, confirmava a certeza do fim do verão. Mal podíamos esperar para saber o que nosso amigo-Guia Bonolo reservara para salvar o feriado de Carnaval que se aproximava a galope.

Viviany, sempre a mais empolgada do mundo, me revelou após breve telefonema que o Bonolo faria uma expedição para o cone sul, tão desejado por toda comunidade unicerjense. Ele ficaria 21 dias, a partir do Carnaval, percorrendo trechos da Patagônia Argentina e Chilena, em caminhadas pesadas que levariam até mesmo dias para serem concluídas.

“Será que dá para nós, amiga?”- perguntei... Sem hesitar minha amiga de fé respondeu: “Bonolo nos autorizou a acompanhá-los na semana do Carnaval e eu estou indo agora, com você, comprar nossas passagens enquanto é tempo. Fecha o computador e ‘vambora’!”

A partir deste momento, nossa excursão teve início. Sendo obra do planejamento do Bonolo, qualquer excursão se torna encantada. Fizemos reunião na Unicerj para conhecer o roteiro e desde já nos integrar previamente com os membros da tribo. Conhecemos a Monica e a Carla, que mais tarde se tornariam nossas grandes parceiras! Fomos juntos ao Centro adquirir alguns itens imprescindíveis para a expedição. Encontramo-nos mais algumas vezes para receber instruções logísticas, pois os membros do grupo chegariam e partiriam em momentos distintos. Tivemos que sair para comemorar e esperar o dia cuja expectativa nos fazia sonhar em todos os poucos dias que faltavam para o embarque.

E chegou o dia. Viviany e eu chegamos a Buenos Aires umas horinhas antes e, à noite, a trupe estava parcialmente reunida. Tivemos o prazer de conhecer o Alonso, amigo “ogro” do Bonolo, que manifestou logo de cara suas “ogrices”, talvez para registrar sua marca. Mas ao longo da viagem foi se revelando um cara muito boa gente e, diga-se de passagem, muito cavalheiro! No dia seguinte partimos em busca do nosso destino: a Patagônia. Pegamos vôos separados, mas chegamos todos juntos a El Calafate. Já no aeroporto identificamos o nosso território. Desembarcamos em uma imensidão, com características já peculiares ao mundo encantado, cantado em prosa e poesia pelo Santa Cruz.

Fomos todos juntos para o albergue. O Sol cortava com seus raios vívidos o deserto e o céu azul. Um friozinho diferente do habitual indicava que havíamos de fato chegado. O táxi nos deixou em uma rua larga, onde ficava o albergue. Muito bem recebidos fomos, nos instalamos e fomos para a rua desbravar aquela terra. Fomos logo ao local onde tinha mais informações sobre Perito Moreno, que dá nome ao grande glaciar que conheceríamos no dia seguinte, após merecido descanso de toda a viagem. Muita expectativa. Vimos muitas fotos. A Monica, incrível geóloga, vibrando como todos, mas sabendo dos fenômenos como ninguém, explicou a tal “ruptura”, vista em seqüência de fotos, que o Bonolo já havia mencionado em uma das reuniões no Clube, por ter estudado e se preparado para guiar a excursão, que para nós seria pura diversão! Voltamos para o albergue. A noite começou a substituir o Sol brilhante e, com ela, veio o frio característico do local. Saímos todos juntos para jantar num lugarzinho delicioso!

Pela manhã, mal sabíamos o que nos esperava... Precisávamos pegar um ônibus para estar cara a cara com uma maravilha da natureza, que o aquecimento global ainda não foi capaz de fazer derreter.

Chegamos lá! Perito Moreno! 60 metros de gelo “arriba”, sabendo que “abajo” eram mais uns 180 metros. 13.000 km2 de área gelada!!! Óculos escuros eram fundamentais para que o poder da reflexão do branco muito branco da neve não nos ofuscasse a visão. Alonso passou algum tempo, durante a viagem de ônibus, estudando como conseguiria concatenar óculos de grau e de sol e ver tudo... e conseguiu! Todos conseguimos ver aquilo! Quanta beleza!!! Que imensidão de gelo! Vimos gelo, lago, montanha, imensidão, gelo caindo, com todas as explicações teóricas dadas por nossa geóloga e nossa geógrafa particulares... a Monica e a Carla!

A Patagônia cantada pelo Santa Cruz começava a fazer sentido real para nós. E assim passou este dia. Mais “Patagones” do que nunca, agora íntimos do Perito Moreno, que nos revelou sua beleza em um dia de sol intenso, sem nuvem alguma no céu, a excursão começou a tomar corpo. É hora de ir embora de El Calafate, este vilarejo chique para turistas, onde estávamos, e colocar o pé na estrada, todos rumo à grande expedição patagônica, que para mim, Viviany e Carla, teria início e já estava quase na hora de terminar. Mas qualquer minuto nesta Terra valeria a pena, qualquer minuto com estes amigos valeria a pena...

No ônibus para El Chaltén, Bonolo leu nosso relato da travessia Cumuruxatiba-Porto Seguro, escrito pelo Fabio (Boletim nº 8), contou historinhas para a gente, explicou coisas sobre a Patagônia que conheceríamos. A Carla nos instruiu sobre como ler os mapas da região e até a Viviany, que não pode nem pensar em viajar sem estar dopada dormindo por causa de sua sensibilidade labiríntica que a faz passar mal, fez todo trajeto acordada, feliz e contente. É a felicidade da reunião de amigos, da viagem, da terra desconhecida.

Rumo a El Chaltén, vimos paisagens deslumbrantes, desérticas, cortadas por grandes lagos gelados. Montanhas ao fundo, com o cume ora liso, ora pontiagudo, cobertos de neve. O Sol... o Sol do deserto parece iluminar diferente... E quando ele se pôs? Tivemos a chance de presenciar este momento! Para onde foi, se parecia que estávamos vendo o horizonte todo, os dois hemisférios ao mesmo tempo, diante de tanta imensidão? De repente tudo sumiu. O Sol se foi e nenhuma luz, a não ser a dos faróis, pelo resto da viagem que já estava por se acabar. Depois de tanta expectativa, espera, desejo e curiosidade, chegávamos a El Chaltén!

O ônibus nos deixou a cerca de uns 400 metros do acampamento. Mochila nas costas e pernas para que te quero. Agora posso mencionar os 400 metros com muito conforto, mas na hora... Depois de andarmos uns 300 metros, havia uma placa sinalizando para a direita: “acampamento 20 km”! O Bonolo nos perguntou: “Pessoal, está todo mundo confortável com suas mochilas? Então ‘bora’ que é para cá!”, apontando para a placa de 20 km. Todos, sem dúvidas, obedeceram, mas com uma dorzinha no coração. Até que, 100 metros depois, ele falou: “Brincadeirinha, podem apoiar as mochilas que nós chegamos!”

E daí foi só alegria! Focalizamos as lanternas, enquanto o Bono escolheu um lugar bom para fincarmos as barracas. Para todos os lados era só breu, barulho do vento, ainda muito discreto pela tenra noite que acabara de chegar. Estrelas, estrelas, estrelas, estrelas e muita curiosidade. Lembro-me que meus olhos procuravam ansiosamente na paisagem apagada pela noite uma deixa daquelas montanhas históricas congeladas no topo, que avistamos de longe durante a viagem de ônibus. Que energia! Ouvíamos caminhantes passando para lá a e para cá junto com os insetos, os bichinhos, o vento e tudo mais que uma noite escura possa oferecer a um forasteiro. Montamos tudo à luz das lanternas.

Era hora de dormir. O dia seguinte nos aguardava repleto de novas emoções, imagens, figuras, sons, sensações, informações. Mal podíamos esperar a noite passar e o dia surgir naquele horizonte desconhecido.

Em uma barraca para dois, estavam Bonolo, Alonso e bagagens. Na outra barraca para quatro, estávamos Carla, Monica, Viviany, eu, as bagagens, toda ansiedade do mundo e a espera. Depois de acomodadas como sardinhas em lata, após reunião e consenso geral, conseguimos colocar nossas mentes em outra dimensão. Ainda assim, éramos capazes de ouvir os ventos uivando na imensidão do bosque que nos cercava por todo lado.

Zzzzzzzzzzz.

É dia em El Chaltén. Antes mesmo do dia amanhecer por completo, eu, ansiosa para fazer o reconhecimento do local, saí da barraca e me coloquei de pé a contemplar tamanha beleza e imensidão. Posso me lembrar como se fosse hoje a sensação que tive ao perceber o local onde passara a noite. Obrigada, Senhor!

Sem qualquer intenção religiosa, independente de credo ou qualquer coisa parecida, acredito que a comunhão com um ser superior, para os que acreditam, acontece a partir da caridade e da bondade. Eventos como este são maravilhosos, alimentam o corpo com energias boas, renovam o nosso humor e a capacidade de fazermos o bem. Mas, é preciso mencionar nesta fala, mais uma vez, a dedicação do Bonolo, que planejou tudo passo a passo, levantou os trechos aéreos e terrestres, reservou nossos pousos, traçou rotas a serem caminhadas, nos reuniu para falarmos sobre a viagem, deu instruções sobre organização de mochilas, indumentária apropriada, farnel, sobrevivência, primeiros socorros, tudo!

Enfim, estatelada pela beleza daquele lugar, eu fui dar uma volta. As árvores estavam cobertas por uma finíssima camada de orvalho que, conforme o Sol ia se impondo, iam desaparecendo como cristais mágicos. A alguns passos do acampamento ouvi um barulho que me chamou a atenção. Fui em busca dele e descobri, alguns outros passos depois, que um rio cortava nosso acampamento! O Río de Las Vueltas. Maravilhada eu já estava, extasiada eu fiquei. Descobri ali, naquele momento, a razão da história que o Santa Cruz e o Tarcisio sempre contam para todos do “soy Patagon!!!”. Coloquei minhas mãos no rio e deixei que a água gelada me explicasse porque o sujeito da história se vangloriava de ser “Patagon”.

Naquele momento, resolvi ser “Patagona” também. Entrei no rio de corpo e alma. Não eram 7 da manhã ainda e meus amigos dormiam. Purificação foi o que eu senti, além de frio, calafrio, arrepio e depois mais nada: anestesia. Saí em 45 segundos, mas logo em seguida entrei de novo, depois de novo, de novo e de novo, sempre em doses de alguns segundos.

Voltei para o acampamento e o pessoal estava despertando. Terminei de acordar quem ainda tentava dormir, mas todos responderam muito bem, diante da curiosidade que vencia o sono e o cansaço.

Estávamos de fato na Patagônia. Ouvimos os ventos cortantes da Patagônia. Estávamos prestes a entrar na floresta patagônica, em busca do primeiro desafio, a Laguna Torre.

O Bonolo, neste primeiro dia, se estressou de leve com o grupo, que parecia estar na Disneylândia, por causa da lentidão nos preparativos. Começamos a subir a montanha no ritmo unicerjense de ser. Um atrás do outro, igual a gafanhoto. Começamos a subir meio tensos, obedecendo ao chamado forte do nosso Guia que estava coberto de razão. Aprumamo-nos e logo, logo começamos a observar o quanto subíamos, o quanto tínhamos para frente e quão bela era a paisagem. A Viviany, figura como sempre, esbravejando com todos, reclamando da inclinação da montanha, da quantidade de galho pelo meio do caminho etc. Do nada, a Carla, não menos figura, lança uma canção para o grupo. Muito ritmada e afinadinha, ela começou a cantar MPB. Primeiro uma musiquinha, depois outra e assim foi se suavizando nossa grande trajetória. Passamos a sucessos internacionais, rock’n’roll, pop e chegou a rolar até uma das músicas da trilha sonora da Noviça Rebelde, quando o Bonolo mandou: “e agora com vocês, a Família von Trapp”, imitando a voz de quem os apresentava nos shows. Eu não pude perder a oportunidade de lançar em altos brados cantados, imitando a noviça, a música “High on the hill, was a lonely golfred ley a ley a ley y ou!!!!“. Risos generalizados ecoaram pelo vale. Estávamos, de fato, nos divertindo de montão, mesmo subindo toda aquela pirambeira!

E mais música, mais alegria e mais estrada pela frente. Quanto mais subíamos, mais parecia ter o que subir. Algumas pausas para fotos, lanchinhos e que se siga o caminho traçado. Cinco horas depois da partida, chegamos ao nosso objetivo: Laguna Torre e Mirador Maestri, aos pés do Cerro Torre. Lá chegando, a Monica nos desafiou a um banho de lagoa. Tinha uns pedaços de gelo boiando na água, mas para quem quase amanheceu dentro da água do rio do acampamento, o que seria um mergulhinho naquele lago.

Os meninos nem desceram para a região molhada, preferiram nos observar de longe, do alto, não acreditando no nosso feito: entrar naquela água perto de 0°C. Pois entramos. Nos esbaldamos, inclusive, naquela aguinha tão agradável! Prontos para retornar, nos reunimos e demos meia volta. Após 9 horas de caminhada, a partir da saída do acampamento, retornamos ao ponto de partida. Exaustos, começamos os preparativos para o alimento de acampamento e a “naninha” merecida, não sem antes uma leitura do Bonolo sobre o Cerro Torre, Cesare Maestri e os “40 anos de controvérsia nos Andes Patagônicos” (Boletim nº 3).

Mais um dia no extremo sul. Mais uma noite passara deixando como registros os ventos característicos por seus sussurros. Acordamos cheios de empolgação para trilhar os novos rumos que nos levariam à Laguna de Los Tres, na base do famoso Fitz Roy. A esta altura, estávamos todos integrados, mergulhados na intimidade de dormir e acordar juntos. Já brincávamos a toda hora com o jeito meigo da Carla, com os “eu não vou conseguir” da Viviany, com a “ogrice” do Alonso. Era quinta-feira, pós-carnaval. Expediente normal no meu trabalho, embora eu tivesse mandado uma mensagem para o meu chefe desejando feliz carnaval para ele e avisando que não sabia se conseguiria pegar um vôo de volta a tempo de chegar na sexta. Sempre rola um frio na barriga! Mas tudo estava sob controle e fomos subir! Estávamos em trânsito desde sábado de carnaval, mas a excursão de caminhadas acabara de começar no dia anterior. E para nós (Carla, Viviany e eu), como dito anteriormente, já estava com seus momentos contados.

Depois de 6 horas de caminhada morro acima, o final ainda não se aproximara. Viviany quase pirou quando, depois de aparentemente subir e descer duas montanhas e estar no meio da terceira subida, me pediu que fosse um pouco a frente para conferir se a tal Laguna já estaria lá esperando por nós. Pois eu fui. Andei, andei, andei um pouco mais e mais e mais e nada. Até que avistei a Laguna a coisa de uns 500 m. Mas ela estava lá. Linda. Azul. Ou seria translúcida? De longe não parecia estar tão fria quanto estaria certamente. “Vamos, Viviany! Você consegue!”. Alonso e Bonolo foram dar apoio moral e anteparo físico para minha amiga que superou o desespero apoiada pelos meninos. Tudo deu certo embora estivéssemos em uma subida bem íngreme com o Sol cegando nosso horizonte. Olhávamos lá de cima e víamos o quanto tínhamos subido. Em compensação, passavam por nós crianças, adultos, muitos idosos pedindo passagem. A Patagônia é um parque de diversões para caminhantes de todo o mundo. O Bonolo havia explicado que os europeus são aficcionados por este tipo de esporte e viajam o mundo em busca de aventuras deste porte. São habituados a fazer isso durante toda a vida e o corpo, acostumado com este ritmo acelerado, parece não padecer com a idade, pelo contrario, soma experiência.

Chegávamos ao deslumbre da Laguna. Não consigo definir o tom daquilo que estava diante dos meus olhos, atentos para todas as informações. Rapidamente corremos em direção à água, pois já se passavam quase 7 horas desde o momento da partida. Queríamos mergulhar naquele lago de qualquer forma. Havia muita gente em volta, mas ninguém se habilitando a entrar. Fomos verificar o porquê e o motivo era o mesmo de sempre: água temperada “on the rocks” a 0° C. Sensação térmica de congelamento. Mas quem se importa, afinal, somos brasileiros e não desistimos nunca. Monica já estava de biquíni chamando a gente. Mais que rapidamente me prontifiquei a entrar também. O Alonso, porém, com o qual implicávamos em todas as paradas congelantes, precisou dar a deixa dele e não se contentou em apenas pular na água e sair imediatamente! Ele concluiu um ciclo de 5 braçadas para dentro do lago, que lhe renderam dor de cabeça depois.

Efeito Patagônia. Viviany estava achando tudo lindo. Mergulhou seus pés na água por 30 minutos a aí sim podemos dizer que ela foi “Patagona”. Embora isto seja um procedimento fisioterapêutico que pode ser aplicado no calor do verão carioca através de equipamento especifico ou baldão de gelo, onde se mergulha a extremidade corporal em agonia, palmas para nossa amiga!!! Meia hora, ainda que em prol da própria cura, dentro do gelo da Laguna, foi ótimo!

Enfim, estando lá em cima, a única certeza que tínhamos, era que era preciso voltar. E assim o fizemos. Nós, eu e Viviany, voltaríamos na certeza que seria nossa última montanha daquela expedição, porém o início de muitas e muitas e muitas outras que se precipitariam com a coragem que nos foi revelada nesta viagem. Quando eu ia poder imaginar que eu, um ser urbano, poderia passar o Carnaval na Patagônia?

Agora, de volta rumo ao acampamento. Nossos pés já davam sinais de cansaço. Os pés da Viviany estavam detonados. Eu estava ansiosa para voltar ao acampamento para telefonar para o trabalho. Alonso e Monica perguntaram ao Bonolo se seria possível acelerarem o passo para chegar antes e pegar a telefônica aberta. A Monica precisava falar com a linda Dianinha, que eu conheceria um ano depois, em outra incrível expedição, desta vez para a Chapada Diamantina. Mas isto é conversa para outro relato... Como a trilha é muito bem sinalizada, Bonolo ficou no ritmo normal com a Viviany e com a Carla e permitiu que Alonso, Monica e eu saíssemos na frente em passos largos para ganhar tempo.

Aceleramos e fomos. Chegamos, telefonamos, achamos um local apropriado para um banho quente. Inacreditável! Muito bom. Uma hora e meia depois, chegam eles, que aproveitaram a maré mansa e foram visitar a Laguna Capri, que nós três perdemos. Pena.

Voltamos para o acampamento e ouvimos mais historinhas da Patagônia, desta vez sobre o Fitz Roy e sua conquista, contadas pelo Bonolo depois do super-macarrão preparado com temperos exclusivos! Mais uma noite caía. Esta, porém, com jeito de Patagônia mesmo. Os ventos não pararam de soprar fortemente um só minuto. A barraca conversava com a gente, tantos eram os sons que o vento produzia sobre ela.

Chamei a Viviany para sairmos um pouco e sentirmos aquilo tudo em cima da gente. Que loucura! Tudo que se conseguia enxergar com os parcos feixes de luz balançava e uivava. A Patagônia nos presenteou naquela noite com seu poder. Restava-nos arrumar as mochilas para no dia seguinte rumar de volta para El Calafate, desta vez sem nossos companheiros, em seguida para Buenos Aires e, finalmente, para casa.

No último dia, ainda rolou um banho de cachoeira, “Chorrillo del Salto”. Isso mesmo: banho de cachoeira em plena Patagônia, em um dia de ventos que proibiam o simples ato de caminhar com equilíbrio.

Esta tal de Unicerj, um Clube não só de caminhantes e escaladores do Rio de Janeiro, mas de amigos queridos, ainda que recém conhecidos, preocupados com as pessoas, a integração delas, o conforto mútuo e a natureza, promove mais do que excursões e diversão. A Unicerj produz senso de coletividade, amizades sinceras e despretensiosas, amor e UNIÃO, como o nome do Clube. É por isso que ele transcende o conceito de simples equipe ou reunião de amigos e ponto. Na Unicerj tem amigo de verdade, ainda que você o tenha conhecido na reunião de quinta-feira passada.

Camila Furtado


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