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Terça-feira, 7 de dezembro de 2021

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Boletim n°8 - Dez. 2003
Voluntariado do Parque Nacional da Tijuca‹‹ anterior 
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Patagônia Chilena

Circuito do Parque Nacional Torres del Paine

No verão de 2003, pela terceira vez na vida tive a oportunidade de visitar uma das maravilhas naturais do nosso planeta: O P. N. Torres del Paine, nos Andes Patagônicos.

Em 1996, eu já era um Guia Montanhista experiente, quando lá estive pela primera vez, com o meu amigo Willy Chen, Guia tão veterano quanto eu, que também só conhecia a região através de relatos de outras pessoas, leituras de livros, fotografias e filmes. Na ocasião eu me perguntei como pude ficar tanto tempo sem ter conhecido, ao menos em parte, uma região tão fascinante.

Em 2001 voltei ao Paine com minha mulher Lucia Ladeira, também Guia da UNICERJ, que verificou in loco que eu não exagerava ao descrever a beleza da região.

Agora, em 2003, com meu compadre e também Guia Caminhante e Escalador Tarcisio Rezende, pude mais uma vez palmilhar por senderos e montanhas do Paine, no extremo sul de nuestra América Latina.

Essa última viagem, como as anteriores, foi planejada com todo o cuidado. Durante 23 dias tivemos tempo suficiente para fazer, em dois períodos, o Circuito do Paine. Ainda sobrou tempo para a Patagônia Argentina onde, entre outras atividades montanhisticas, tivemos a ventura de galgar o Loma del Piegle Tumbado, cume nevado do Parque Nacional Los Glaciares com visual magnífico do El Chalten (Fitz Roy).

Numa viagem dessas o aprendizado sócio-cultural é imenso, contudo este relato enfatiza nossa experiência vivenciada no Circuito do Paine.

Saímos do Rio de Janeiro dia 12 de fevereiro de 2003 rumo a Buenos Aires num vôo direto. Lá tomamos outro avião para a cidade El Calafate, no coração da Patagônia Argentina. A quase dez mil metros de altura, viajando do lado direito do avião dava para ver com nitidez o contorno de montanhas imponentes como o Lanin e os vulcões Villarica e Osorno com seus cumes nevados de rara beleza. Sobrevoávamos a Argentina e víamos também o Chile, com a Cordilheira dos Andes, suas montanhas intermináveis e lagos de coloração verde-azulada tão distantes dos olhos mas tão próximos do coração.

O avião fez uma escala em Bariloche. Foram 40 minutos de espera sem poder sair para caminhar um pouco, o que é sempre um tanto claustrofóbico. Curiosamente poucas pessoas desembarcaram. Havia muita gente que estava indo conhecer a Patagônia, inclusive um casal de holandeses que tinha estado no Brasil e gostado muito das praias da Bahia, em especial Arraial d’Ajuda (que pronunciavam Ajudá como se fosse palavra oxítona). Os holandeses se surpreenderam quando souberam que seu país ocupara boa parte do nordesde brasileiro no século XVII.

Quando o jato pousou suavemente, apesar do vento intenso, no recém inaugurado aeroporto de El Calafate, o piloto foi aplaudido. Os aplausos acredito, eram também pela contentamento geral por estarmos na Patagônia, brindados pela beleza da paisagem do Lago Viedma, muito azul, emoldurado pela aridez insólita da região mais austral da América do Sul.

A partir daí nossa viagem seria por terra. Tarcisio ficou muito entusiasmado com o Glaciar Perito Moreno. De fato, presenciar o desmoronar incessante de blocos gigantescos de gelo do mais famoso glaciar do planeta é uma experiência inenarrável.

Cruzamos a fronteira, deixando a Argentina e seguimos para o Chile, até a cidade de Puerto Natales, no Oceano Pacífico. Tão hospitaleira quanto El Calafate mas ainda menor, é a cidade mais próxima do Parque Nacional Torres Del Paine. Tudo em Puerto Natales gira em torno do Paine, com seus hotéis, pousadas, hospedagens familiares e empresas de turismo e serviços de pessoas contratadas para apoio logístico de excursões guiadas.

Nos instalamos no Estrelita del Sur, uma hospedagem familiar que eu já conhecia das vezes anteriores. Sem perda de tempo tratamos de adquirir os mantimentos para a nossa permanência no Parque, além do indispensável combustível para o fogareiro, sem o qual não teríamos como preparar as nossas refeições nos vários dias de caminhada e acampamento.

Na véspera da ida para o Paine, as mochilas, cuidadosamente arrumadas, estavam estufando de tão cheias, carregadas com todo o equipamento de frio, chuva, neve, barraca, cozinha, sacos de dormir, protetor solar, câmeras fotográficas, bússola, mapas, bem como uma boa quantidade de alimentos para vários dias. Na última hora decidi deixar na hospedagem o livro "A Consciência de Zeno", de Ítalo Svevo, que estará para mim sempre associado a esta viagem, embora a história se passe na Europa mediterrânea. O livro foi tirado da mochila não tanto pelo seu peso e sim porque cheguei a conclusão que tendo que caminhar durante o dia, e repousar à noite para recompor as energias, não sobraria muito tempo para ler. De qualquer modo, para os poucos momentos que desse para ler já dispunha de algumas poucas páginas com poesias de Fernando Pessoa, Carlos Drummond, Ferreira Gullar e Pablo Neruda, bem como um texto de Henrry Thoreau: Caminhando (muito a propósito por sinal). Essas dezenas de páginas seriam mais que suficientes. Além disso tinha meu diário para escrever, sempre que possível. Quando voltasse a Puerto Natales poderia retomar a leitura do livro de Svevo.

Finalmente, dia 16 de fevereiro, pela manhã, com o céu muito bonito, iniciamos entusiasmados nossa caminhada na Hosteria Las Torres, ponto de partida do Circuito do Paine. Nossas mochilas pesavam como se estivessem com chumbo maciço, ou melhor, ósmio, que é o elemento químico mais denso da tabela periódica de Dimitri Mendeleiev.

Para agravar eu ainda estava me recuperando de uma gripe. Tarcisio brincou comigo: "Isso é para você deixar de ser fominha". Realmente, eu tinha me desgastado um pouco escalando o Dedo de Deus e o Paredão Mario Arnaud, pela Escola de Guias, mas como podia evitar? O montanhista se sente inexplicavelmente atraído pelas montanhas. Então para que tentar explicar?

Logo no primeiro dia constatamos o quanto é verdadeira a afirmação "Patagônia sem vento não é Patagônia". O tempo que pela manhã parecia tão firme mudou rapidamente e com algumas horas de caminhada nuvens de chuva encobriram completamente o céu. Na Patagônia é assim mesmo. É possível vivenciar as quatro estações do ano em um único dia: céu azul, nuvens, chuva, granizo e até mesmo neve. Por sorte o Refúgio Seron estava próximo quando a chuva nos alcançou. Prudentemente decidimos acantonar nesse refúgio onde, protegidos do temporal, preparamos uma substanciosa refeição muita apreciada e tratamos de dormir. Cinco horas mais tarde Tarcisio me acordou e tratamos de jantar. Lá fora o céu estava completamente estrelado e a lua tingia todo o vale de prata. Conversamos muito com outros montanhistas, em especial com o Cristian, responsável pelo Refúgio. Ele, que é de Santiago e sonha conhecer o Brasil, nos fez lembrar o nosso amigo Christian pela sua esfuziante maneira de falar.

O nosso segundo dia no circuito do Paine demandou cerca de sete horas de caminhada, passando pelo acampamento Coiron até chegarmos as imediações do Glaciar Dickson. No local, muito apropriado, por sinal, há um refúgio e área de acampamento muito aprazível. Montamos nosso acampamento e preparamos um reforçado e delicioso jantar. À noite choveu mais de uma vez, mas a área de acampamento, além de ótima drenagem, era muito bem protegida do vento.

Ao despertamos para o terceiro dia de caminhada, observamos o refúgio praticamente lotado e dezenas de pessoas a nossa volta desmontando acampamento aproveitando o belíssimo dia para prosseguir. Não podemos deixar de registrar a camaradagem entre os montanhistas, dos mais diversos países, e o zelo e hospitalidade dos funcionários do Parque.

Nesse terceiro dia a topografia mais do que acidentada do relevo exigiu-nos mais determinação e energia pois a trilha sobe bastante até chegar ao acampamento Los Perros. Nesse dia atravessamos uma floresta de coníferas de cortar a respiração de tão bonito. Por várias horas caminhamos em silêncio por esse extenso bosque de variadas colorações, fragrâncias e sons inebriantes da mata, como se nos fizesse viajar por um mundo mágico. Lembrei-me de Pablo Neruda: "Se você não conhece os bosques do Chile, você não conhece o planeta Terra". Mais uma vez, depois de tantas viagens ao Chile, dei razão ao autor de "Canto Geral" e "Confesso Que Vivi".

E tome subidas e mais subidas, que deixaram o bosque lá no fundo do vale. Mais tarde, o tempo fechou completamente chegando a escurecer embora faltasse muitas horas para o por do sol, que no verão só ocorre bem tarde na Patagônia. Colocamos nossos anoraks duplos e calças impermeáveis por cima de agasalhos de lã e mesmo assim a chuva de granizo fez a temperatura cair acentuadamente. Barras de chocolate foram providenciadas. Quando chegamos ao Glaciar Los Perros, o vendaval era muito intenso, nos obrigando a caminhar agachados com o intuito de baixar o centro de gravidade, caso contrário não conseguiríamos nos equilibrar. O visual era tão bonito que Tarcisio me fez lembrar o amigo Clair Pessanha, quando viu pela primeira vez, do cume do Mirante do Inferno, a Agulha do Diabo: "É impressionante, Santa Cruz!". É isso mesmo. Tem que ir lá. Durante todo o percurso do circuito existem sinalizações muito bem feitas, pintadas nas rochas e nas árvores, que permitem uma orientação precisa e segura para aqueles que forem aventurar-se nas trilhas habilitadas do Parque. Não fosse isso, em especial esse terceiro dia, provavelmente nós teríamos encontrado muita dificuldade de orientação para chegar ao nosso objetivo.

O Acampamento Los Perros fica situado no meio de árvores imensas com geleiras por todos os lados nas montanhas a sua volta. Chegamos lá no fim da tarde quando o tempo já havia limpado completamente com o céu azul contrastando o verde das árvores e a cintilação brilhante da neve ao por do sol, prenunciando a noite fria que se avizinhava. Preparamos um jantar bem caprichado pois no quarto dia iríamos atravessar o ponto mais alto do circuito, o desafiador Passo John Gardner. É comum mesmo no verão, o Parque interditar esta passagem em função de nevascas e mau tempo, mas a sorte estava do nosso lado e tivemos a felicidade de atravessá-lo com céu imensamente azul.

Ao despertarmos para o quarto dia de caminhada, constatamos que havíamos usado para dormir todos os agasalhos que dispúnhamos. De fato foi a noite mais fria que passamos no Paine, algo como o Planalto do Itatiaia no inverno rigoroso. Talvez um pouco mais. Apesar disso dormimos bem e animados iniciamos a jornada com muita disposição. A trilha seguiu por entre arbustos onde tivemos que enfrentar lama e terreno alagado por algumas horas. Tivemos, provavelmente, menos dificuldade que os vários montanhistas europeus que como nós partiram do Acampamento Los Perros. Afinal somos do país das chuvas tropicais e das tempestades de verão. Mais acima a vegetação foi diminuindo e passamos a caminhar literalmente sobre terreno pedregoso e esfarelento, que dificultava a nossa marcha. Por outro lado o visual se abria para uma imensidão infinita com o vértice do passo que, ilusoriamente, parecia estar muito próximo. Levamos um bom punhado de horas e algumas paradas para atingi-lo. Nesse esforço de subida encontramos, cada vez mais, blocos de gelo e neve espalhados ao longo da trilha.

À medida que prosseguíamos, a temperatura caia nos obrigando a vestir agasalhos que deram conta do recado. Quando chegamos ao passo propriamente dito permanecemos um bom tempo naquele local insólito, varrido pelo vento que vinha do Glaciar Grey, bem a nossa frente, com centenas de quilômetros de gelo, prosseguindo indefinidamente formando o chamado gelo continental. Tal qual o Glaciar Perito Moreno ou a Agulha do Diabo, não adiantam fotografias vídeos ou filmes. Tem que ir lá para que se possa ter uma idéia da maravilha que é.

Descemos o passo nos aproximando do Glaciar Grey por uma trilha íngreme e escorregadia. Mais abaixo encontramos um bosque raquítico que foi tornando-se mais frondoso a medida que avançávamos até chegarmos ao Acampamento Passo, onde armamos nossa barraca num platô elevado frontal ao Glaciar Grey. Como nos demais locais de acampamento e nas trilhas, encontramos tudo muito limpo e as instalações bem conservadas.

No quinto dia caminhamos até o Lago Pehoe, passando pelo Acampamento Los Guardas e pelo Refugio Grey. Esse dia foi bastante pesado em função da extensão percorrida, e também pela certa dificuldade que tivemos para atravessar alguns córregos de degelo, considerando que estávamos no quinto dia seguido de caminhada.

Após uma noite sombria de muita chuva e vento que fustigou a nossa barraca, o dia amanheceu com um tempo péssimo, chuvoso e frio. Ficamos sabendo que o passo John Gardner que havíamos atravessado dois dias antes tinha sido fechado até que o tempo melhorasse. Decidimos, então, voltar para Puerto Natales para esperar a melhora do tempo e retornar posteriormente ao Paine para completar o Circuito. A decisão se revelou sábia porque pudemos descansar alguns dias aguardando uma janela de tempo bom para completar o Circuito, e ainda, se possível, subir até o Vale do Rio Francês, com o visual mais espetacular do Parque.

Foram necessários mais dois dias para fechar o Circuito. Retornamos de Puerto Natales revigorados, com muita disposição, e animados. Após os vários dias de chuva, a natureza se mostrava ainda mais prodigiosa e bela. O tempo agora, provavelmente, ficaria firme por alguns dias. Desse modo, não apenas completamos o Circuito como também fomos ao tão almejado Vale do Rio Francês. Tivemos a alegria de encontrar tempo magistralmente cristalino. Nas duas vezes que eu tinha estado neste vale fiquei muito impressionado com o que pude ver. Dessa vez, foi ainda mais impressionante pois o ar estava transparente, permitindo a contemplação nos mínimos detalhes de todas as montanhas e suas vertiginosas escarpas: Catedral, Cuernos, Fortaleza, Tiburon, Paine Grande...

Após completarmos o Circuito no tempo real de oito dias, somadas as duas investidas, nós estávamos com a alma lavada e podíamos até voltar para casa muito felizes e com a consciência tranqüila do objetivo plenamente cumprido.

Contudo, tínhamos ainda outro tanto de emoções a serem amealhadas do outro lado da Cordilheira, no Parque Nacional Los Glaciares, Argentina. Mas esta é outra história.

Santa Cruz


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