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Quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

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Boletim n°9 - Dez. 2004
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Casamentos

Para a Seleção Brasileira de Futebol entrar na semi-final da Copa América teve que vencer o México, no dia 17 de julho de 2004, jogando em Arequipa, a 2360 metros de altitude no Peru. Se perdesse, voltaria para casa. Mas afinal jogou muito bem, vencendo numa goleada de 4 x 0. Ao sair do campo, Zagalo disse em entrevista a um jornalista que os jogadores tomaram atitudes sem frescuras por causa da altitude. Rê rê rê, é essa mesma desculpa todas as vezes que jogam nos países Andinos, caso percam o jogo. Na nossa vida também é assim, tentamos sempre achar uma razão para o fracasso.

Nesta ocasião convém lembrar alguns acontecimentos que marcaram a UNICERJ neste ano, como os casamentos de dois dos nossos guias: do Leandro e da Thais, no dia 1 de fevereiro, em Miraflores, e o do Leo e da Bia no dia 3 de julho, no Jockey Clube do Centro.

Leo, um dos fundadores do Clube, dedicou muito tempo e energia na implantação da UNICERJ, mesmo com a faculdade e o trabalho. Nós sabemos o que a Bia passou, com sua extraordinária compreensão, sacrificando horas preciosas dos fins de semana, para que o namorado pudesse escalar. Ele é uma das pessoas mais sérias do clube em questão de segurança e disciplina, desde garoto já era assim. Porém, nós sabemos que seu sorriso está sempre estampado no rosto, mesmo quando corrige nossas falhas na manobra dos equipamentos ou nas costuras. Durante os anos que a Bia esteve estudando no exterior, eu pensei que o namoro fosse acabar, mas agora pude comprovar que tudo foi planejado e estudado, e que ambos passaram por este período com lealdade e persistência. Segundo o sociólogo Zygmunt Bauman no livro ‘Amor Líquido’, o sentimento no mundo da modernidade líquida foi vitimado por ter se tornado tábua de salvação. Os casamentos se transformaram em fonte de satisfação que, se não satisfaz, deve ser descartado. Ao contrário disso, a utopia da felicidade requer algo mais.

Eu vejo isso no caso do Leandro. Como souseu pai, acompanhei seu relacionamento de perto, passo a passo. Conhecemos a Thais há três anos, no mesmo dia que estávamos a procura de um lugar para estabelecer o novo negócio dele. Pedimos informações na galeria e apareceu uma moça bonita, descalça, de cigarro na mão, cabelo e roupa meio hippie, disposta a ajudar. Acabaram por trabalhar lado a lado. Passado um ano como vizinhos de loja, eles se apresentaram aos familiares de ambos os lados como colegas de trabalho. No ano seguinte a Thais já ajudava na loja dele e os dois oficializaram o namoro. Acabamos por conhecer sua família em várias visitas, lá e cá. Descobrimos pontos em comum: ambos vêm de família completa, da mesma classe social de comerciantes simples, cheios de lutas para sobreviver nos altos e baixos, nas alegrias e tristezas. Como de costume nas grandes famílias, não faltaram fofocas e festas.

No início deste ano, quando veio a notícia positiva da gravidez, houve espanto e felicidade, medo e alegria, tudo se misturou. Ninguém tinha idéia de como ia ser, porque eles não estavam financeiramente preparados para casar. Tivemos várias reuniões de família e na maioria não víamos outra solução, senão ‘deixar correr’, o que significaria que a criança iria nascer e os pais continuariam trabalhando. Mas ambas as famílias estavam dispostas a ajudar no que fosse preciso, encorajando-os a casar, se houvesse amor entre os dois. Com todos ajudando, as coisas aconteceriam. Sei que o Leandro sofreu para tomar uma decisão que mudaria a vida dele daqui para frente, mas prevaleceu seu amor pela Thais e a criança, e eles então se casaram no cartório de Copacabana, numa cerimônia civil realizada pela juíza Dra. Maria Vitória.

Quando o Osvaldo e a Lucia souberam da notícia, ofereceram Miraflores para fazer um churrasco em comemoração. Assim surgiu a idéia de uma cerimônia de casamento ao ar livre para os amigos do Clube. Eu pedi à Celeste que ficasse encarregada de organizar e ela, sendo advogada, ainda selecionou uns sortilégios sobre a doutrina do casamento, dividindo os tópicos entre nossos velhos amigos e parentes, que fariam o discurso no dia. A cerimônia foi simples, porém muito intensa e significativa. Todos os participantes contribuíram com quinze reais para a realização da festa, no estilo mutirão do clube. Por isso não usei o termo ‘convidados’. Todos foram a Teresópolis no espírito de companheirismo, de querer festejar. Com liberdade para vestir e sentar onde quisessem, mesmo no gramado, todos prestavam atenção no que a Celeste falava. Ela expressou muito bem o significado da união de um casal, anunciando para a sociedade, a base e os valores que o jovem casal tem que respeitar. Para os coroas, tais palavras sobre o casamento serviram como reciclagem do contrato feito décadas atrás, para fortalecer os laços com seus velhos companheiros. Falei com o Santa Cruz que com este evento abrimos um autêntico estilo Unicerjense de se casar, para aqueles que procuram definir o significado do casamento de maneira bem econômica. A meu ver é válido o ‘estilo Miraflores’ para futuros casais de namorados, que sejam montanhistas e que queiram se casar.

Por outro lado, aqueles que participaram do casamento da Bia e do Leo no Jockey Clube do Centro, sabem o que é um casamento resultado de um planejamento meticuloso a longo prazo. Champagne da melhor qualidade do início ao fim. Canapés variados ininterruptos, prato principal de bom gosto, sobremesas, bolos, chocolatinhos finos na saída, etc. Sem contar o chiquê dos convidados, o salão cheio de autoridades: professores, advogados, juízes... Observei que nosso Professor Osvaldo obteve mais IBOPE do que o ex-ministro Francisco Dornelles nessa noite – em volta do Santa Cruz só tinham jovens rindo e brincando. O Dornelles, sozinho e de bico, provavelmente se perguntava curioso quem era esse barbudo tão popular. Os jovens colegas do casal se divertiam na pista de dança, que tinha até um telão com fotos da vida do casal desde crianças. Descobrimos ainda que a juíza era a mesma Dra. Maria Vitória, num elegante vestido amarelo. Ela falou com a mesma ternura, com seu jeito carinhoso excepcional. Trezentos convidados com roupa a rigor, num cenário de fraternidade e cordialidade. Só podemos ter muito orgulho destas duas famílias por proporcionarem uma cerimônia tão bela. Pude assim constatar que para se fazer a coisa certa são precisos anos de planejamento e perseverança.

Vamos voltar ao que eu queria expressar. Mencionei no início sobre algo para o qual transferimos a nossa culpa quando não conseguimos realizar alguma tarefa. A mensagem é então a seguinte: no Clube além de transmitirmos técnica de escalada e caminhada, demonstramos como deve ser um cidadão, no que diz respeito às suas responsabilidades familiar e social. Todos os jovens montanhistas iniciantes, além do estudo e da carreira para realizar, ainda têm uma série de problemas com relação ao seu futuro cônjuge. E pela nossa experiência, após a passagem de tantos jovens pelo Clube, sabemos que a maioria interrompe a atividade de montanhismo por causa dos parceiros ou parceiras. Mencionei estes dois exemplos para ilustrar que temos uma família unicerjense que pode dar apoio para realizar uma união. Sendo rico ou pobre, a felicidade depende daquele que busca. Um pai e uma mãe montanhistas implantam uma visão ‘verde’ na mente da próxima geração desde a infância. Mesmo que a criança cresça só gostando de praia, sabemos que a força de vencer na vida foi implantada neles. Há esperança.

Willy Chen


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