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Quarta-feira, 24 de abril de 2024

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Boletim n°10 - Dez. 2005
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Os Meninos da Vila Mar

Os meninos da Vila Mar foram ao Pico da Tijuca. Era domingo, 4 de dezembro de 2005. Reclamavam da “nossa Guia” que andava rápido, mas a verdade é que andavam mais rápido do que ela.

O certo mesmo é que quase levitavam, de tanta energia. Foi impossível não pensar em Baltasar, Blimunda e Bartolomeu, personagens setecentistas de José Saramago, que andavam à caça de vontades para abastecer o motor da máquina de voar e poder ver o mundo de cima, acima das montanhas.

Nunca tinham chegado tão alto, por suas próprias pernas, os meninos da Vila Mar. Estavam quase nas nuvens.

- “Olha o Maracanã!”. – “Olha aquele lugar que tem o bondinho!”. – “Olha o H.U.!”.

Tinham descoberto a Ilha do Fundão, os prédios da Universidade, o Hospital Universitário, a Vila Mar.

- “Olha a tua mãe gordona na praia!”. – “Olha o teu pai bêbado”. – “Não tá vendo a tua casa, seu viado?”.

Eu, no meio deles, o coração cheio de emoções. Ganhar a confiança daqueles senhores da guerra. Submergir da brutalidade caótica e ter olhos para ver beleza na feiura. Compreender a busca da transcendência. Ficar triste com o egoísmo obtuso da sociedade que produz tanta disparidade.

Não é de muito que eles precisam. Já são vencedores – até aqui.

Alguém abriu uma janela, um pouquinho. Uma restiazinha de luz avançou na escuridão. E os meninos da Vila Mar se descobriram fotógrafos.

Carregam nas costas seu laboratório portátil. Manejam bandejas de revelação com maestria. São vanguarda com suas câmeras de lata e fotografias de pin hole. Familiaridade total com as digitais. São o bicho na meta linguagem.

“– A palavra é oportunidade, cara!”

Uma oportunidade solar, a daquele domingo. Luz, para fotografar e para olhar o outro bem no fundo do olho, também. Comida, para encher a barriga e esquecer as necessidades, por um tempo. Convívio, para praticar o respeito ao outro - difícil de entender. Alguém disse generosidade?

Aprender também sobre a montanha. Erosão todos sabiam. “– Abrir atalhos causa erosão.” E os bichos, que não apareciam? “–Do jeito que vocês falam alto...” Queriam saber o nome das árvores. “–Tem pau brasil nessa floresta?”. Depois, apareceram os estudantes da Biologia, e toca a descobrir insetos. Mostrei para eles as framboesas: virou uma brincadeira de procurar e comer as frutinhas vermelhas.

Como diria um querido companheiro, foi um domingo memorável. Juntaram-se: um apaixonado, com um sonho; jovens universitários, igualmente apaixonados; meninos carentes, que se descobriram fotógrafos e que podem se descobrir tantas coisas mais; uns Guias de montanha, querendo contagiar o mundo com o companheirismo que aprenderam, e a própria montanha.

Enquanto voava descendo a trilha – e eles colados!, pensava em como estávamos todos tão felizes.

Via, atrás de mim, com os olhos mágicos de Blimunda, nove corações cheios de vontade, faltando um nadinha para cortarem as amarras e voarem.

Celeste


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