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Quarta-feira, 24 de abril de 2024

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Boletim n°10 - Dez. 2005
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Excursão à Chapada Diamantina

SONHO. É a palavra que me vem à cabeça quando lembro dos dez dias em que estivemos envolvidos na viagem à Chapada Diamantina, no sertão da Bahia. Sonho porque acalentava o desejo de conhecer a Chapada há muito tempo, por mim conhecida apenas através de revistas, sites e opiniões de pessoas que foram pra lá e voltaram maravilhadas.

Quem nunca tinha ouvido falar da Cachoeira da Fumaça, considerada por muitos anos a maior do Brasil? E também do Morro do Pai Inácio, que possui a clássica vista dos chapadões da Chapada? Mas com certeza já ouviram falar daquela que é considerada por muitos a mais bonita do Brasil, a travessia do Vale do Paty? Ou do Poço Encantado, do Azul e do Diabo? Ou as grutas da Pratinha e Azul?

Sonho também porque vimos e sentimos lugares e sensações que mais se pareciam com um daqueles sonhos que, de tão intensos e especiais, parecem tão reais, desejando que não acabem nunca. Como a Cachoeira do Buracão, um lugar mágico apenas há pouco tempo descoberto pelos turistas, que fiquei conhecendo através de uma reportagem de uma revista de ecoturismo. Ou a maravilhosamente indescritível Cachoeira da Fumacinha, que nunca tinha ouvido falar. Logo eu, um aficionado pela Chapada Diamantina, que colecionava revistas e informações sobre ela, para que quando chegasse a tão esperada hora de ter o privilégio de conhecê-la, soubesse de todas suas atrações naturais. Quanta pretensão! A Chapada sempre vai ter o poder de surpreender, impressionar e emocionar seus visitantes...

Poderia escrever um livro sobre ela e as emoções vividas por nós lá. Mas isso acho que vai ficar para uma outra oportunidade. O que garanto, para já, é me dispor a escrever nessas linhas um pouco do que vivenciamos por lá, mas, principalmente, sobre a realização do sonho maior: realizar a clássica travessia do Vale do Paty. Mas antes de falar sobre a travessia, um pouco do que vivemos antes...

Tempo e dinheiro: os maiores obstáculos hoje em dia para se realizar uma tão sonhada viagem, estavam resolvidos. Além da saúde, faltava o último ingrediente: um companheiro, pelo menos. Já havia sondado algumas pessoas no Clube, mas ninguém se interessou. Ou quase ninguém. Quando disse pro Mocellin que pretendia ir em outubro pra Chapada ele topou de imediato. Já sabia de antemão do seu interesse em conhecer a Chapada.

O tempo foi passando e outras pessoas foram se agregando à nossa viagem. Quando a Jolie também topou ir conosco, decidimos ir de carro. Depois de algum tempo, Fábio, Malu, Elayne e Adélia também confirmaram a ida. Pronto, estava formado o "time". E uma coisa que viria a descobrir mais tarde, o "time" teria um entrosamento perfeito.

Após dezenas de e-mails trocados, telefonemas e recomendações, chegou o dia. Era uma tarde chuvosa de primavera. O dia, 15 de outubro. Depois de aproximadamente oito horas de viagem no primeiro dia, decidimos parar em Caratinga para dormir e continuar a viagem no dia seguinte. Escolhemos o único hotel razoavelmente decente que estava aberto. Não me lembro o nome. Só sei que era do Grupo Pessoa (observação: esse grupo foi o grande motivo de risos durante toda a viagem).

No dia seguinte, rodamos durante quase o dia inteiro. Já eram quase 19:00h quando chegamos na acolhedora Mucugê, pacata e agradável cidade ao sul da Chapada. Vimos que não valia a pena continuarmos até Lençóis, como pretendíamos. Com isso, mudamos um pouco os planos e faríamos, no dia seguinte, os Poços Azul e Encantado. À noite, aproveitamos e fomos conhecer o Cemitério Bizantino, único do gênero na América Latina, que, com sua iluminação especial, maravilhou a todos.

No dia 17, saímos bem cedo da pousada e partimos para o Poço Azul. Vencidos uns 25km de estrada de terra e um riacho, chegamos na gruta que forma o poço, de indescritível beleza. Todos mergulharam e puderam ver com seus próprios olhos a transparência da água. Depois, fomos ao Poço Encantado, famoso por seu raio de sol que, nos meses de maio a setembro, entra por uma clarabóia e incide na superfície do lago, dando um toque mais especial ao mesmo. Chegando lá, passamos por uma pequena descida na entrada da gruta que dá acesso ao salão onde fica o poço. E, como que por um encanto, todos ficaram imóveis, admirando a beleza do Poço Encantado e seu azul intenso. Nem dava para acreditar que no meio dele a profundidade era de mais de 40 metros!

Dali, fomos direto para Lençóis, onde dormiríamos, para fazer, no dia seguinte, o Poço do Diabo, a Pratinha e o famoso Morro do Pai Inácio. No Poço do Diabo, que fica nas margens da rodovia BR-242, que liga Salvador a Brasília, ficamos um bom tempo na sua cachoeira e no seu imenso poço de águas escuras, muito diferente dos poços anteriores. A vontade era de ficar ali o dia inteiro, mas como o tempo era curto, partimos novamente, agora para a Pratinha, um grande balneário de águas incrivelmente cristalinas. Um verdadeiro oásis no meio do sertão baiano. Mergulhamos e, logo em seguida, partimos para o momento mais aguardado do dia: o pôr-do-sol no alto do Morro do Pai Inácio, que fica às margens da rodovia.

Sobe-se de carro um bom trecho e termina-se com uma caminhada bem leve, de uns 20 min, até o cume do morro. No alto, todos, sem exceção, ficaram maravilhados e até mesmo emocionados com a vista que se tem lá de cima, que superou todas as expectativas. Outro sonho realizado...

O plano de agora em diante era ir para o Vale do Capão, onde visitaríamos a Cachoeira da Fumaça e depois, ao longo de três dias de caminhada, cruzaríamos a Chapada pela famosa trilha do Paty, o objetivo principal. Conseguimos um transporte em Lençóis que nos levasse até lá e, no dia 19, bem cedo, partimos.

Até a Cachoeira da Fumaça leva-se umas duas horas de caminhada, em média. Uma hora, subindo as escarpas da serra e outra, andando pelo planalto. Chegando perto da cachoeira, começamos a sentir os respingos provocados pelo vento e pela pouca quantidade de água que cai da cachoeira. Andando mais um pouco nos deparamos com o enorme abismo que ali surge, de mais de 400 metros de altura. A sensação é indescritível e a beleza, mais ainda.

Voltamos para o Capão, onde ficamos numa pousadinha bem simples, preparamos toda a tralha que levaríamos para a Travessia do Paty e, no dia 20, as 06:00h como tínhamos combinado na véspera, Seu Nenéu apareceu com sua caminhonete caindo aos pedaços para nos levar ao povoado de Bomba, onde nossa aventura realmente começaria.

Lá chegando, logo atravessamos um riacho de águas límpidas onde enchemos nossos cantis. A caminhada nesse início se dava por entre a mata fechada. Além disso, este trecho era de uma longa subida até os Gerais do Vieira, mas nada muito cansativo. Chegando nos gerais, pudemos observar toda sua extensão, de vários quilômetros por onde caminharíamos, além dos chapadões característicos do local. Seguiríamos pelos Gerais até um local conhecido como Rancho, onde faríamos um desvio de nossa rota, passando a caminhar pelos Gerais do Rio Preto.

Durante o caminho pelos Gerais do Viera, cruzamos por vários riachos onde nos abastecíamos, sem nos preocupar. Por volta do meio-dia, chegamos no Rancho onde fizemos uma pausa para um lanche reforçado. Muitas pessoas acampam por aqui e também pensei nessa hipótese, mas como ainda estava cedo e o pessoal estava com pique, resolvemos partir com destino à Ruinha, já no Vale do Paty.

Saímos do Rancho em direção à ladeira do “quebra-bunda”, que nos levaria até os Gerais do Rio Preto. É uma subida curta, mas intensa, e que nos proporcionaria a vista mais fantástica de toda a travessia, já que dali de cima podíamos ver desde o início dos Gerais do Vieira, ao norte até o início do Vale do Paty, ao sul, num espetáculo simplesmente inesquecível.

Caminhando maravilhados com o que nos cercava, chegamos, em determinado ponto, num local que marca a descida dos Gerais do Rio Preto em direção ao Paty, logo após um grande muro de pedras, feito pelos escravos na época de ouro do garimpo. Essa descida se mostrou muito íngreme e traiçoeira, além de nos revelar odores estranhos ao ambiente...

Resolvi continuar a caminhada, mesmo sa-bendo que a noite já estava para cair, porque para irmos até a Ruinha dali, teríamos que voltar um trecho. Nosso objetivo agora era chegar numa das poucas casas de moradores no vale do Paty, mais precisamente, como indicava o mapa, a casa da D. Léia.

Foi um bom trecho de caminhada já de noite, mas enfim chegamos ao nosso objetivo. D. Léia nos recebeu com muita hospitalidade e nos ofereceu sua casa para pernoitarmos e cozinharmos nossa janta. Janta! Só tinha ouvidos para essa palavra, já que caminhamos durante aproximadamente 12 horas e, além da fome, estávamos mortos de cansaço.

O local era simplesmente fantástico. A casa de D. Léia era cercada pelos morros característicos da Chapada, no coração do Vale do Paty. Não havia luz elétrica num raio de vários quilômetros, o que nos proporcionou uma noite estreladíssima. Fomos dormir com a companhia uns dos outros, das montanhas e do céu. Nada mais.

A recompensa pelo grande desgaste da caminhada até então veio no dia seguinte. Já que andamos praticamente dois dias em um e nosso próximo bivaque seria numa casinha chamada “Prefeitura”, distante uma hora dali, ficaríamos praticamente o dia inteiro descansando numa cachoeira que ficava aproximadamente a uma hora dali, a Cachoeira dos Funis.

É uma linda cachoeira, de uns 50 metros de altura, com uma piscina natural aos seus pés. Um convite irresistível para passar o dia por ali, ainda mais que éramos seus únicos freqüentadores. Dali, podíamos contemplar o Morro do Castelo, que era um de nossos objetivos nesse dia. Mas como o pessoal estava precisando descansar, abortamos sua subida. Ficou pra próxima...

Depois de horas descansando na cachoeira, voltamos na casa da D. Léia para pegarmos nossas mochilas e partimos rumo a Prefeitura. Agradecemos a hospitalidade de D. Léia, nos despedimos e continuamos a caminhada. O caminho é de uma beleza sem igual, com os paredões típicos da Chapada nos acompanhando de um lado e de outro. Uma hora depois, chegamos no Rio Paty, que dá nome ao vale. Cruzamos o rio e logo avistamos a casa da Prefeitura e seu belo gramado para armarmos as barracas. O lugar era simplesmente fabuloso! O rio e o som relaxante de suas águas, um gramado perfeito para as barracas, cercados de montanhas belíssimas e, se não bastasse, um pôr-do-sol inesquecível. O que mais poderíamos pedir? Nada! Lembro que depois de tudo pronto e janta servida, ficamos horas deitados no gramado olhando para o céu estupidamente estrelado, rindo que nem crianças, às gargalhadas, nem sei mais sobre o quê. Mas isso não fazia diferença nenhuma naquela hora.

Dia seguinte, último dia de caminhada, desarmamos as barracas, tomamos um café reforçado e partimos rumo a Andaraí, nosso destino final. Mas para alcançá-lo, teríamos que vencer a famosa Ladeira do Império, cuja inclinação e desnível a ser vencido são consideráveis.

Após uma hora de caminhada, chegamos numa ponte de concreto que, no passado garimpeiro da região, servia para se transpor o rio Paty, rumo à Andaraí. Hoje em dia, é uma ponte abandonada, que liga o nada a lugar nenhum e semi-destruída. Pausa para um lanche, fotos e recobrar o fôlego para encarar a famosa ladeira, que avistávamos mais adiante.

A subida da Ladeira do Império é belíssima, recheada de flores (afinal, estávamos na primavera) e com um visual do vale do Paty de tirar o fôlego, literalmente! Dela podíamos ver também o vale do Cachoeirão, onde uma cachoeira com o mesmo nome despenca por mais de 200 metros (poderíamos ter ido até lá, mas devido ao pouco tempo que dispúnhamos não fomos, já que nos consumiria um dia inteiro, a partir da ponte semi-destruída citada anteriormente).

Após algumas horas de caminhada e paradas para recuperar o fôlego, vencemos a ladeira e começamos a descer rumo à Andaraí. A partir desse momento, damos adeus definitivamente ao vale do Paty, facilmente percebido pela mudança brusca de paisagem. Agora, ao invés da vegetação exuberante, avistávamos matas mais secas. A trilha era praticamente uma estrada esburacada, com muitas pedras, bem diferente do trecho anterior.

E com isso, nossa aventura pelo vale do Paty ia terminando. Foram três dias de contato intenso com a natureza, na sua forma mais exuberante. Paisagens de tirar o fôlego. Resumindo: momentos mágicos, que, com certeza absoluta, ficarão guardados para sempre na memória daqueles que tiveram a sorte de poder desfrutar de tais momentos. Era mais um sonho sendo realizado, porém ainda não tinha terminado...

Digo isso porque os dois dias seguintes foram igualmente mágicos. Pudemos conhecer duas cachoeiras fabulosas, legítimas representantes da exuberância natural que esse país possui. Uma, a cachoeira do Buracão, despeja suas águas com violência em quase 100 metros de altura, num verdadeiro “buracão” cavado no solo. Nela pudemos chegar até sua base e sentir toda a força da queda d’água em nossos corpos. Uma sensação indescritível. Mágica.

E no dia seguinte, para encerrar com chave de ouro essa inesquecível excursão, o grand finale, a Cachoeira da Fumacinha, que ouvimos falar, por acaso, dentro de uma loja de Lençóis. A caminhada é pesada, por volta de 5 horas, apenas para chegar na cachoeira. Mas o final é recompensador. Escondida no cânion que atravessamos durante horas, defendida por paredes verticais de quase 300 metros de altura, encontrava-se, imponente, a cachoeira. Lembro que não falávamos uma palavra, de tão estupefatos que estávamos ao nos depararmos com a grandiosidade de sua queda d’água. O silêncio era uma forma de reverenciarmos sua majestade, sua imponência. A Fumacinha reinava absoluta naquele vale e o som de sua queda ecoava por todos os cantos. Até arriscamos um mergulho no poço formado pelas suas águas gélidas, tentando chegar na base da cachoeira. Em vão. Nosso medo de enfrentar uma queda d’água daquela magnitude nos venceu. Seus mais de 200 metros de altura, apesar de avistarmos “apenas” uns 120 metros, impunham respeito. Nos demos conta de nossa insignificância e nos propusemos apenas a apreciar a cachoeira de longe. Maravilhados. Extasiados.

Retornamos da Fumacinha direto para a casa de dona Adelice, onde tínhamos dormido na noite anterior por convite dela, e onde deixamos nossas coisas. Após uma bela janta, nos despedimos daquela senhora amável e hospitaleira, que tinha cedido sua casa para aqueles aventureiros forasteiros, que ela nunca vira na vida, rumo ao Rio de Janeiro. Isso serviu para nos mostrar que o brasileiro, mesmo e, sobretudo, os mais humildes, pode ser considerado ainda um povo amistoso, solidário e acolhedor. Como nosso Clube.

E como disse antes, a Chapada Diamantina tem um poder sem igual de impressionar e emocionar quem a conhece. Mas, como se não bastasse tudo isso, os momentos inesquecíveis vividos durante nossa estada na Chapada também nos mostrou o poder que o montanhismo tem de criar novas e verdadeiras amizades e de podermos exercitar nosso espírito de camaradagem. Nosso espírito de companheirismo.

Paisagens deslumbrantes, amizade, momentos inesquecíveis, solidariedade, contato com uma natureza esplendorosa, companheirismo. Tudo isso me vem à mente quando leio ou escuto essas duas palavras: Chapada Diamantina. Um mundo único dentro de nosso Brasil. Um mundo feito de SONHO.

Cela


PS: Não posso deixar de registrar a ajuda inestimável que o Luiz Henrique, amigo meu e montanhista de Juiz de Fora me prestou. Sem dúvida, parte do sucesso desta excursão se deve a ele. Obrigado Luiz!


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