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Quarta-feira, 24 de abril de 2024

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Boletim n°10 - Dez. 2005
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Seminário do Parque Estadual dos Três Picos

O Seminário aconteceu em 6 de agosto de 2005, precisamente no dia em que se completou sessenta anos do ataque nuclear à Hiroshima.

A UNICERJ compareceu de modo entusiasmado, com mais de vinte sócios, sendo, desse total, 12 Guias.

Chegamos pontualmente no horário estabelecido. O evento em si não demorou a começar. No início foram feitas algumas palestras que não trouxeram muitas novidades. Posteriormente, moradores da região de Salinas, principalmente os mais antigos, também convidados, levaram emoção ao encontro de montanhistas, pois deram o exemplo de luta pela preservação do sagrado direito constitucional de ir e vir, o que inclui transitar livremente na região do Parque Estadual dos Três Picos (PETP).

De fato, como ficou assegurado depois, o direito dos descendentes diretos dos pioneiros povoadores da região, deve vir antes do que quaisquer veleidades de montanhistas em suas idiosincrasias.

Pouco antes do almoço, teve início o primeiro debate acalorado, pois os organizadores do Seminário reafirmaram uma proposta, a nosso ver descabida, de interdição da Descida Leonardo Perrone, conquista da UNICERJ concluída em 2004, após quatro investidas.

Acontece que nenhum daqueles que defendeu essa proposta tinha feito a via que propunham interditar. Qualquer um tem o direito de não gostar de uma via de escalada ou descida, mas isso não lhes dá o direito de determinar como os outros devem subir ou descer montanhas. De modo coerente e firme os representantes da UNICERJ lembraram aos presentes que vivemos em um país que possui uma Constituição e um ordenamento jurídico que vale para todos os cidadãos.

Após o almoço, tivemos muitas polêmicas e também foi possível convergir para pontos comuns. Ficou acertado que a Descida Leonardo Perrone e a Descida Ernesto Sábato têm todo o direito de existir. Afinal, a pluralidade de estilos que todos dizem defender deve ser uma prática assegurada pelos que lutam para que o montanhismo seja um espaço de liberdade. Caso contrário, cairemos na ditadura do estilo único, esterilizante das múltiplas potencialidades humanas.

Como cidadãos livres, repudiamos com ve-emência que as vias do PETP tenham que seguir unicamente o eufemístico "Estilo Salinas", que pressupõe escaladas temerárias, proteções distantes e, conseqüentemente, com risco muito elevado.

Essa opção pode até ser preferida por alguns montanhistas, mas certamente está longe de ser a opção de todos, pois há os que reconhecem os riscos inerentes ao montanhismo que dispensa os gestos irracionais de soberba.

Evidentemente, é preciso coragem para reconhecer o medo, o que não impede que se possa superá-lo de modo saudável e com os mínimos padrões de segurança garantidos. A UNICERJ se identifica com aqueles que defendem um estilo mais cauteloso, mas não menos desafiador. Isso não quer dizer que somos melhores ou piores que ninguém. Há espaço para todos os estilos no montanhismo, sem que qualquer um precise se tornar hegemônico.

No montanhismo, caminhadas, escaladas e descidas complementam-se mutuamente. Não devemos dizer que uma dessas modalidades é superior ou inferior à outra. De fato, há montanhistas que escalam muito bem, mas dizem não gostar de caminhadas. Há outros que não têm a menor aptidão para descidas, principalmente as vertiginosas.

Há alguns anos, escrevi com o Sayão um livro que foi publicado em 1999, e se chama "As Descidas Vertiginosas do Dedo de Deus". Foram necessárias trinta idas ao Dedo de Deus só para concluir as vias que deram origem as narrativas que compõem esse livro. E ainda, vale acrescentar que por reconhecer a grande importância e beleza das descidas, conquistei com amigos unicerjenses uma via em homenagem a uma das minhas três filhas, a Descida Anamaria, no Bico Maior.

No dia do Seminário, vários escaladores decla-raram não gostar de descidas, o que é uma opção deles. Alguns desses montanhistas são escaladores talentosos e poderiam amealhar muita emoção se conseguissem superar esse ‘horror’ às descidas. Já outros tentam nos chamar pejorativamente de ‘rappeleiros’, pois não sabem que gostar só de descidas, também é um direito. Somos montanhistas na plenitude do que significa ser montanhista. E não temos vergonha de declarar que também fazemos e gostamos de rappels. Para falar a verdade, nos orgulhamos das conquistas que realizamos, sejam elas vias de escalada ou descidas. Tudo é montanhismo.

Enfim, não dá para resumir em poucas palavras o que foi esse dia memorável em que posições antagônicas foram defendidas exaustivamente e com o devido vigor, mas preservando minimamente condições de um debate civilizado, que talvez tenha sido o saldo mais positivo do evento.

No fundo, o que todos desejam é coexistir pacificamente em um ambiente de respeito mútuo. Como disseram os mais velhos moradores da região, "A gente quer respeito". Gente de todas as idades quer isso e luta para que haja respeito.

Todos nós montanhistas, independentemente da maneira como escalamos e fazemos nossas conquistas, temos responsabilidades comuns com as próprias montanhas e com as comunidades que vivem em seu redor.

Santa Cruz


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