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Quinta-feira, 1 de junho de 2023

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Boletim n°1 - Jul. 1998
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O Teto do Mundo


Qualquer montanhista sabe qual é a montanha mais alta do mundo e onde ela fica: trata-se do Monte Everest, no Nepal, com elevação de 8.848 m acima do nível do mar. Esta montanha é, assim, constantemente referida como o "teto do mundo", e é certamente a Cordilheira do Himalaia que nos vêm à cabeça cada vez que ouvimos esta expressão.

Reflitamos, porém, sobre o que significa realmente o conceito de "teto do mundo". Imaginamos prontamente que tal lugar seja o ponto que mais se projeta sobre a superfície de nosso planeta, ou seja, o ponto que mais se eleva. Se concebemos a superfície do oceano, padrão de todas as medidas altimétricas, como uma superfície uniforme a recobrir uma Terra esférica, reconhecemos que o Monte Everest realmente não possui competidor, merecendo assim o título de "teto do mundo".

Esta nossa conversa fica, porém, mais complicada ao constatarmos que a Terra simplesmente não é esférica. Nosso planeta possui um suave achatamento nos pólos, decorrente de seu movimento de rotação, apresentando portanto um formato abaulado, como uma esfera de borracha comprimida entre dois dedos. Como resultado a Terra possui um "bojo" na altura da linha do equador, fazendo com que um objeto localizado nos pólos esteja a uma distância menor do centro da Terra do que outro objeto situado no equador.

Vemos que a diferença entre os raios terrestres, equatorial e polar, é de aproximadamente 21 Km, que é a diferença da distância ao centro da Terra entre um ponto situado no pólo e outro no equador. Nosso planeta apresenta um formato chamado de "elipsóide de rotação", ou seja, visualizado acima da linha do equador, possui a aparência de uma elipse, e não de um círculo. Conhecendo-se os raios equatorial e polar, pode-se calcular matematicamente a distância de qualquer ponto da superfície terrestre ao centro do planeta, distância esta que dependerá obviamente da latitude geográfica.

MONTANHA

ALTURA

DISTÂNCIA DO CENTRO

1

McKinley

6.190 m

6.367,50 Km

2

Logan

6.050 m

6.368,05 Km

3

Whitney

4.420 m

6.374,93 Km

4

Cayambe

5.800 m

6.383,80 Km

5

Chimborazo

6.270 m

6.384,26 Km

6

Huascarán

6.770 m

6.384,24 km

7

Sajama

6.520 m

6.382,46 Km

8

Ojos del Salado

6.880 m

6.380,53 Km

9

Aconcágua

6.960 m

6.378,88 Km

10

Kenya

5.190 m

6.383,19 Km

11

Kilimanjaro

5.960 m

6.383,95 km

12

Everest

8.848 m

6.382,20 Km

13

Carstenz

5.000 m

6.382,89 Km


O leitor mais perspicaz já terá percebido que a superfície que define o nível do mar também acompanha o formato elipsóide do planeta. Este fato garante que, como dissemos anteriormente, o Monte Everest seja a montanha mais "alta" do mundo, a que mais se eleva acima do nível do mar.

Por outro lado, vemos que esta montanha já não pode mais ser considerada como o teto do mundo! Pelo que foi exposto, fica clara a possibilidade de que existam montanhas que, embora elevem-se menos em relação ao nível do mar, por se encontrarem mais próximas do equador que o Monte Everest apresentem em seus cumes uma distância maior do centro da Terra que esta famosa montanha. E à montanha que apresentar em seu cume maior distância ao centro da Terra daremos o título de "teto do mundo".

Existirão montanhas em tal situação? A resposta é afirmativa.

A figura acima representa, em um planisfério terrestre simplificado, diversas montanhas famosas, com suas alturas sobre o nível do mar e as distâncias de seus cumes do centro da Terra. Conforme observamos na tabela correspondente, há várias montanhas que superam, por uma margem de até 2.000 metros, o Monte Everest. Entre elas, destacamos, na Cordilheira dos Andes, o Chimborazo e o Cayambe, no Equador (esta última localizada quase que exatamente sobre a linha do equador), e o majestoso Huascarán, na Cordillera Blanca do Peru, uma das mais altas montanhas (no sentido convencional) das Américas, e a mais alta entre as localizadas nos trópicos. No continente africano, destacamos o Monte Kilimanjaro que, quase na linha do equador, eleva-se bruscamente sobre as tórridas planícies da Tanzânia.

Na lista que apresentamos estão todos os possíveis candidatos a "teto do mundo": estas montanhas foram selecionadas para este artigo tanto por sua elevada altura intrínseca, quanto por sua proximidade do equador. Qual delas leva o título?

Não entraremos em detalhes neste artigo, mas, além do formato de elipsóide, a Terra apresenta pequenas distorções de formato que fazem dos cálculos apresentados uma primeira aproximação. O Chimborazo, na Cordilheira Ocidental do Equador, supera o Huascarán por cerca de 20 metros em distância ao centro da terra, e leva o título. Faz-se assim uma espécie de justiça poética: no século XIX, antes que os formidáveis gigantes do Himalaia fossem conhecidos, o Chimborazo foi considerado pelos europeus como a montanha mais alta da Terra, pois os Andes Centrais, ainda mais altos, não haviam sido explorados. Esta montanha foi escalada pela primeira vez pelo alpinista inglês Edward Whymper em 1880, que pode então ser considerado como o conquistador do "teto do mundo" - 74 anos antes da conquista do Monte Everest pela expedição inglesa de 1953. Os ingleses portanto podem alegar haver feito tanto a primeira ascensão da montanha mais alta do mundo quanto do teto do mundo.

Observamos com curiosidade que os modestos picos do Cayambe e Carstenz (este último, o mais alto pico da Oceania), por sua posição equatorial, são capazes de superar o grande Everest. E que o orgulhoso Monte McKinley, no Alasca, o mais alto pico da América do Norte e das regiões polares, por sua posição quase na altura do círculo ártico vê-se reduzido bem abaixo do que seus 6.200 m indicariam, sendo superado mesmo pelo modestíssimo Monte Whitney, nas Rochosas, que certamente não figura na lista dos gigantes do mundo.

Há muitas maneiras diferentes de se encarar as montanhas. E se indubitavelmente sua altitude nos fascina, e nos emociona o fato de uma pessoa poder dizer estar no ponto mais alto do planeta, seja qual for a definição que dermos a este lugar, a verdade é que todo e qualquer cume compartilha do mesmo sentimento de realização, da mesma euforia que invade a nós montanhistas todas as vezes que nos abraçamos e comemoramos mais uma excursão realizada.

E ao escalarmos as nossas montanhas brasileiras, ausentes da lista das mais altas do mundo, podemos estar seguros que compartilhamos algo da alegria que sentiu Edmund Hillary e seu companheiro sherpa Tenzing Norgay, conquistadores do Everest, ao porem os pés pela primeira vez no cume do imenso gigante nevado.

Uma montanha e um feito que, com toda a fragilidade do conceito de "mais alto" e "teto do mundo", para sempre permanecerão como um símbolo, um mito, a nos alimentar e impulsionar para cima, na direção do limite entre o céu e a terra, aquilo que nós montanhistas chamamos carinhosamente de "lar": o teto do mundo de cada um...

Gustavo Mello


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