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Quinta-feira, 23 de maio de 2024

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Boletim n°11 - Dez. 2006
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Quito, Ambato! Ambato, Quito!*

Felipe Porto

Bummmm!
– Que foi isso?
– Oxi! Esqueci que num tava em casa de maínha e caí do beliche!

Assim acordamos em Bogotá. Depois de meses de planejamento, finalmente começava nossa investida por Colômbia, Equador e Peru. Era 8 de setembro de 2005 e a capital colombiana fervilhava de gente. Priscila, Buarque, Nery e eu havíamos chegado na noite anterior e nos hospedado em um hostal no centro da cidade. Sem muitas opções para a janta arriscamos um pouco da culinária local: pollo con papas y arepas (frango com batatas e panquecas de milho). Não podemos dizer que foi uma má escolha. Não foi uma escolha! Mas ao longo das 3 semanas seguintes teríamos a chance de experimentar as múltiplas variantes do pollo con papas.

Saímos cedo para uma volta pelas redondezas, não sem antes ver o Nery desenferrujar seu espanhol: “Tengo mucha plata! Tengo que escondêla”. Tudo bem, escondemos! Mas não precisa falar alto no meio do hostal! Esticamos as pernas conhecendo as sedes dos 3 poderes ao redor da Plaza de Armas, as obras do pintor e escultor Fernando Botero (conhecido por suas figuras “cheinhas”), o fascinante Museo del Oro, com belíssimas peças pré-colombianas e o Santuário de Monteserrat, nossa primeira montanha em terras estrangeiras (que subimos de teleférico!). Infelizmente nossa passagem por Bogotá foi muito curta, pois partiríamos já na manhã seguinte para Pasto, quase fronteira com o Equador.

Após um vôo forçado (sim, porque nunca mais entro em um avião com hélices!) e uma escala em Cali, chegamos a Pasto. De lá, tomamos um taxi para Ipiales, onde cruzamos a fronteira para o Equador. O sudeste da Colômbia é menos conhecido e ainda sofre forte influência da guerrilha, o que nos fez seguir adiante. Já no Equador rumamos para Otavalo, primeira cidade “grande” para os que vêm do norte e ponto central para diversos passeios. Optamos por um agradável hostal um pouco afastado da cidade, mas que nos possibilitava diversas caminhadas a cachoeiras e mirantes. Depois de “aquecidos”, partimos em busca de algo mais desafiador: impedir a Priscila de gastar tudo na feirinha de artesanato!

Manhã seguinte e partimos para os Lagos de Mojanda de bicicleta. Acho que foi demais para os muchachos que vieram da praia... andar de bicicleta a 3.700m! Só mesmo a bela paisagem dos 3 lagos de águas azuis pra renovar as energias. Ao nosso lado o vulcão Fuya-fuya (4.200m) escondia seu cume coberto por nuvens. Depois disso nos restavam os 16 km de descida sobre paralelepípedos até a cidade. Aproveitamos e levamos um frango assado quentinho para o hostal, que quase tivemos que deixar com os 3 dogos argentinos na entrada!

Resolvemos conhecer as opções mais distantes da cidade e escolhemos o formoso Lago Cuicocha, aos pés do vulcão Cotacachi, que mostrava seu cume nevado em um dia de céu límpido. O lago faz juz ao nome (“lago dos Deuses”) e é, na verdade, uma cratera de vulcão alagada. Em sua superfície azul encontram-se 2 ilhas formadas por lava, e ao redor delas é possível distinguir as pequenas bolhas de enxofre indicando que o vulcão ainda está ativo.

Seguimos para Quito em um típico ônibus equatoriano, vermelho, com cortinas bordadas e DVD pirata.

Já na capital reiniciamos a seção gourmet e experimentamos a chicha morocho, um fermentado de milho que por pouco não nos derruba, e a excêntrica combinação de comida local com culinária chinesa, chamada chifa, que ainda nos renderia outra história. Bem alimentados, despertamos no dia seguinte para nossa nova empreitada: a investida ao vulcão Ruccu Pichincha (4.698m), que fica no entorno da cidade. Chegando aos pés da montanha descobrimos o recém construído teleférico (TeleferiQo) que leva os turistas a 4.050m de altitude. Estávamos prontos para enfrentar a subida mas, para não fazer uma desfeita com os equatorianos, tomamos o teleférico até Cruz Loma, a estação superior. A partir daí algumas horas de caminhada nos levam às suas encostas, já cobertas por cinzas que dificultam bastante o trecho final. Os pés afundam como areia e as pedras se desprendem facilmente, rolando encosta abaixo. Do alto de sua cratera é possível ver seu companheiro, o Guagua Pichincha, que fica no mesmo maciço e está ativo! A paisagem é estonteante e as diversas rochas abaixo sinalizam o poder daquela força da natureza.

Construir cidades aos pés de vulcões é uma característica interessantíssima do Equador, provavelmente pelo uso das águas termais e da fertilidade do solo. Quito é cercada por vulcões, assim como Otavalo e outras cidades por onde passaríamos mais tarde. O país é cortado de norte a sul por duas cordilheiras que derivam dos Andes peruanos, tornando-o extremamente variado ambientalmente, principalmente se considerarmos sua diminuta área. O Equador mostrou um destino incompreensivelmente pouco conhecido, do qual destacam somente as Galápagos. No entanto possui desde lindas praias com temperaturas “cariocas” a montanhas nevadas, passando por uma riquíssima floresta tropical. Além disso Quito possui um Centro histórico riquíssimo, no qual destacam-se a Igreja da Companhia de Jesus, o Museu de São Francisco e a Basílica de Quito com belos exemplos do sincretismo religioso do início da colonização espanhola.

“Quito, Ambato! Ambato, Quito!” Os gritos dos cobradores dos ônibus apressavam nossa ida para Baños, o maior centro de ecoturismo do Equador. De Baños partem excursões para Rio Verde, já na floresta tropical, Cotopaxi e outros vulcões e cachoeiras ao redor. Buarque seguiu logo pela manhã enquanto Priscila, Nery e eu assumimos nossa condição sou-turista-mesmo-e-daí e partimos para um passeio à Mitad del Mundo. Após algumas horas baldeando de trens a metrôs a ônibus, e já achando que estávamos voltando para a Colômbia, chegamos à Mitad del Mundo!
O marco dividindo Norte e Sul; a água que descia pelo ralo num sentido no Norte e noutro no 39 Sul; o pequeno museu descrevendo as missões geodésicas francesas e... o Buarque estava certo: isso é coisa pra turista! Mas não podíamos sair do Equador sem botar um pé em cada hemisfério! A parte curiosa (e mais interessante) foi a visita a uma pequena comunidade onde o vento literalmente fazia a curva (e quase levou Priscila junto!). Tinham casas, escolas, pasto, plantações. Tudo normal não estivessem dentro da cratera de um vulcão extinto! Uma enorme cratera de 4km de diâmetro! Retornamos para Quito ampliando nosso passeio: tomamos um ônibus errado! Tudo bem, conhecemos um pouco mais da cidade e seguimos para encontrar nosso amigo em Baños, onde certamente haveria uma cama quentinha e uma boa comida nos esperando.

Ah, nada como um bom amigo. Buarque já havia descoberto um bom hostal e um restaurante chinês, onde faríamos nossa janta. Para quem está acostumado a almoçar no Centro do Rio, uma comida chinesa é mais garantido que as iguarias locais. Abrimos o menu e, devido à diversidade de gostos e à fartura do cardápio optamos por pedir 2 meia porções. Foi quando sem perceber caímos no terrível golpe do Chaulafan! O atendente nos trouxe 2 porções inteiras (“2 vezes ½ son 4 medio chaulafan”)! E cobrou!!! Chaulafan safado! Mesmo depois de muito argumentar, não teve jeito, pagamos em dobro. Pelo menos era bem barato.

Cedo já estamos de pé (sob protestos do Nery, é claro!) e partimos para a loja onde o Buarque já havia negociado um passeio de bicicleta. Mas foi só ouvir a descrição do passeio que o Nery se animou: “Solo bajada”. Logo estávamos em cima das magrelas descendo a Panamericana, ladeada o tempo todo pelo magnífico Rio Pastaza e as maravilhosas cachoeiras que nele desaguavam. Saindo um pouco do asfalto seguíamos por uma estreita estrada de chão onde podíamos passar debaixo de outras cachoeiras. Paramos um pouco mais a frente num aglomerado de gente. Era um bondinho para atravessar o canyon. Não nos fizemos de rogados e deixamos as bicicletas de lado para um passeio aéreo. Que vista! Era possível acompanhar todo o traçado do rio. Seguimos por essa paisagem por 17 km, até o Pailón del Diablo, uma fantástica queda d’água. Buarque e Nery, nossos ciclistas profissionais seguiram pelo resto da estrada até Rio Verde, já na Floresta Tropical. Eu e Priscila resolvemos ficar por ali pois já andávamos como dois cowboys.

No dia seguinte nos despedimos de Baños. Uma pena, pois há muita coisa para conhecer no entorno, inclusive o Tungurahua, um vulcão ativo ao lado que alimenta as águas termais da cidade. Escapamos de uma boa pois algumas semanas depois de voltarmos para casa ele entraria em erupção. Seguimos para El Tambo, onde poderíamos visitar as famosas ruínas de Ingapirca, mas algo no meu horóscopo me dizia pra ter ficado em casa. Tomamos um ônibus que seguia por um belo caminho até que... ao lado começaram a surgir precipícios! Mas eles não estavam “lá” ao lado e sim “aqui” embaixo das rodas do ônibus! Estávamos em uma estreita estrada de terra que se desfazia sob os pneus do ônibus! O silêncio tomou conta dos passageiros que esboçavam nada além de um sorriso nervoso a cada curva daquela serra. Até que paramos bruscamente! Chegamos? Não! O ônibus começa a voltar de ré. Havia errado a curva e por pouco não voltamos ao pó!

Paramos em Riobamba para uma baldeação e seguimos para El Tambo em pé. Quatro horas depois o que restou de nossos ossos finalmente chegou ao nosso destino. Depois disso não fazia muita lógica escolhermos onde comer ou dormir e optamos pelo mais próximo. A cama estava ótima mas a comida cobrou seu preço... No dia seguinte, já recuperados, seguimos para as ruínas de Ingapirca. De dentro do ônibus já era possível vê-las... e continuamos assim, observando de dentro do ônibus! Entre nós e aquelas maravilhosas ruínas havia uma manifestação dos moradores locais que reivindicavam a urbanização da comunidade e bloqueavam nossa entrada. Bem, quando não é pra ser...

Uma viagem de ônibus e algumas horas depois chegamos a Huaquillas, fronteira com o Peru (às 20h!). Depois de rodarmos a cidade em busca do posto de imigração, resolvemos trocar uns dólares por nuevos soles peruanos. E bancamos os turistas... 22h, país desconhecido, dinheiro desconhecido, cidade de fronteira... recebemos nossas boas vindas ao Peru! Eu e Buarque somos agraciados com 2 notas falsas! Mas ainda não sabíamos e iríamos descobrir da pior maneira (Não, não fomos presos!). Depois de muito discutir o preço, com direito a cena “vou a pé mesmo”, cruzamos a fronteira de taxi, parando em Tumbes, a primeira cidade do Peru. De lá pegaríamos um ônibus até Chiclayo, nosso real destino naquele dia. Mas chegando em Tumbes encontramos a cidade parada. Havia um paro em todo o país em protesto contra o governo! Buscamos um hotel e, sem muito o que procurar, decidimos ficar no mais barato. Afinal de contas, só precisávamos de um lugar pra tomar banho e desmaiar até o dia seguinte, quando seguiríamos viagem bem cedo. Pelo menos era o que esperávamos.

O estado do banheiro não nos animou a tomar banho. Acho que por isso as pulgas nem se meteram conosco essa noite. Logo cedo buscamos as empresas de ônibus mas estavam todas paradas. Aceitamos a idéia de um taxista de seguir até Mancora, um famoso balneário mais ao sul de onde, segundo ele, estavam partindo ônibus para Chiclayo normalmente. Entramos no carro e, além do motorista, entra mais um capanga! “É hoje! Vão desovar a gente!”. Passado o susto, vimos que é costume andar com mais um. Em Mancora descobrimos que os ônibus também estão demorando a sair e vamos passar a tarde por lá. Aproveitamos pra discutir o preço do taxi sem pressa. O safado do taxista havia combinado um preço por pessoa conosco e chegando lá nos disse que o preço era pra 6 pessoas! Gabriela está tentando nos explicar até hoje.

Em Chiclayo partimos para uma visita aos sítios arqueológicos no entorno como as Ruínas de Chan-Chan, as Pirâmides de Túcume e o riquíssimo Museu do Senhor de Sipan, onde é possível conhecer jóias, vestimentas e objetos resgatados por arqueólogos dos sítios. Vale destacar que nos sítios por onde passamos era possível vê-los trabalhando a distância enquanto os turistas visitavam áreas já escavadas e abertas ao público. A partir de Trujillo, um pouco mais ao sul, fizemos um tour pelas Huaca del Sol e Huaca de la Luna (pirâmides feitas de tijolos de barro) e conhecemos os folclóricos caballitos de tortora (canoas feitas da “palha” da tortora). Agora é hora de ir para as montanhas!

Chegamos a Huaraz, cidade base para diversas atividades de montanha, principalmente pelo enorme Parque Nacional de Huascaran. Coisa de deixar a gente de boca aberta, acostumados com PNSO. Aqui é só pedir informação e entrar. O Parque inteiro está a disposição. Cachoeiras e lagos maravilhosos como a Laguna 69, que tivemos a oportunidade de visitar. Águas azuis a beira de um paredão rochoso com seu cume nevado, depois de passar rios de águas congelantes e maravilhosas montanhas. Quem sabe numa próxima vez dedicaremos umas 2 semanas a esse Parque. Em Huaraz também encontramos ruínas enormes e bem cuidadas como as de Chavín de Huantar, cercada de mistérios.

Despedimo-nos de Huaraz em direção a Lima, para nossa volta pra casa. Mas não podíamos terminar essa maravilhosa viagem sem conhecer uma sensação que não temos aqui no Brasil. Finalizamos nossa viagem com um “campo-escola” de escalada no gelo, em Huaraz. Quem nunca comeu melado, quando come se lambuza, e nós não deixamos por menos.

Esperamos o avião em Lima já recordando nossos momentos nas semanas anteriores. E recordamos até hoje enquanto aguardamos ansiosos pela próxima vez! 

*Gritos ouvidos ininterruptamente na rodoviária de Baños e demais cidades do Equador


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