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Quinta-feira, 23 de maio de 2024

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Boletim n°11 - Dez. 2006
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El Misti II

Buarque

O título de “muy generosa ciudad de Huaraz” é mais do que justo para descrever essa cidade e a região do Callejón de Huaylas onde ela se encontra.

Situado nos Andes, ao norte do Peru, o Callejón de Huaylas é um vale formado pelo Rio Santa que tem a leste a Cordillera Blanca, com inúmeras montanhas nevadas de mais de 5000m, e a oeste a Cordillera Negra. O que Huaraz e outros povoados vizinhos perdem em beleza arquitetônica, conseqüência de desastrosos terremotos e enxurradas que com freqüência obrigam a população a reconstruir cidades do zero, eles ganham em beleza natural e cultural. Lá, pela primeira vez, pude ouvir o quechua, idioma difundido pelos incas antes da chegada dos espanhóis e que ainda é a língua mais usada pelos campesinos em torno de Huaraz. Apesar disso e mesmo tendo sido reconhecido como um dos idiomas oficiais do Peru em 1975, o quechua é ignorado e marginalizado pelos órgãos governamentais, sendo apenas ensinado de “pai para filho”, como nos contou um Guia de montanha local que também era formado em letras, preocupado com a possibilidade de desaparecimento desta língua. Com raríssimas exceções, todos falam o castelhano e, devido à grande quantidade de estrangeiros, dentro de Huaraz também é possível se comunicar razoavelmente bem em inglês.

Huaraz é uma cidade que vive do turismo, recebendo muitos montanhistas estrangeiros, principalmente na alta temporada que vai de maio a setembro. Além das montanhas, a região também oferece diferentes atrativos como banhos termais, esqui no glaciar de Pastoruri e diversos sítios arqueológicos como o de famoso Chavín de Huantar, construído há mais de 3000 anos (isso mesmo, três mil anos!) e ainda em bom estado de conservação.

Vindos de Arequipa, Godinho e eu chegamos a esta cidade na noite do dia 24/7/04, após duas longas viagens de ônibus, uma de 15 horas para o norte até Lima e outra de 8 horas seguindo de Lima a Huaraz.

No primeiro dia fizemos um passeio leve por Honqopampa onde existem interessantes ruínas pre-incaicas e na manhã seguinte, vindo de Lima, chegou o Borges. Juntos fizemos excursões de um dia à Laguna Churup, à Laguna 69 e mais uma escalada de dois dias ao nevado Vallunaraju, com 5675m. Apesar de ser considerado um dos nevados mais fáceis da região, a subida ao Vallunaraju é mais técnica, exigindo uso de crampones, cordas e piolets. Mesmo estando melhor aclimatado, a altitude do Vallunaraju foi suficiente para me fazer reencontrar o conhecido soroche que eu havia experienciado na frustrada subida ao Misti em Arequipa.

Mas, além do soroche, eu tinha outras razões para me lembrar do Misti, mesmo antes dessa escalada ao Vallunaraju. A idéia de tentar novamente subí-lo ficava me martelando a cabeça, afinal essa era a única montanha que havíamos premeditado escalar ainda no Brasil. Durante a programação desta viagem, Godinho e eu havíamos nos proposto de, após Huaraz, voltar ao sul do Peru para conhecer Cusco e Machu Pichu. Fiz alguns cálculos e concluí que reduzindo em um dia a minha estadia em Huaraz e tirando também um dia de Cusco, seria possível tentar acertar minha diferença com o Misti, abrindo  mão, porém, da visita a Machu Pichu. Apesar das solenes promessas feitas de voltar um outro ano a Arequipa para subir o Misti, decidi não esperar tanto tempo e parar por lá no caminho para Cusco. Isto resultou em vários dias nos telefones de Huaraz para alterar passagens de avião e contratar uma agência de excursões em Arequipa, para me incorporar a um grupo que estaria subindo o Misti nos dias 2 e 3/8.

Assim, após 6 dias em Huaraz e uma demorada despedida do Borges e Godinho na rodoviária, por conta de um atraso do ônibus, fui para Lima aonde cheguei tarde da noite, pernoitando no primeiro hostal que encontrei no centro da cidade. No dia seguinte passei a manhã conhecendo um pouco do centro histórico de Lima para passar o tempo e à noite me encaminhei ao aeroporto para pegar o avião que, após mais um longo atraso, me levaria finalmente de volta a Arequipa.

Chegando lá, à noite, fui recebido por um motorista da agência que eu contratara e, depois de acertar os detalhes finais da excursão, me recolhi no hotel para arrumar as coisas e descansar. E na manhã seguinte lá estava eu mais uma vez com a mochila nas costas enfrentando a encosta de cinzas, pedras e ichu do Misti, acompanhado desta vez por mais uma dúzia de turistas de diversos cantos do mundo, enquanto Borges se reencontrava com a Raquel em Lima para voltar ao Brasil e Godinho passeava pelos arredores de Cusco e programava sua ida a Machu Pichu.

Desta vez eu não só já estava mais bem aclimatado pela estadia em Huaraz, como ainda podia aproveitar a moleza de não precisar levar nem me preocupar com a refeição, pois esta seria providenciada pelos guias contratados. De fato, enfrentei a subida do primeiro dia com uma disposição bem melhor que a da primeira vez. É verdade que armamos o acampamento em um platô mais baixo que o daquela outra investida, o que significava que o ataque do dia seguinte seria mais longo, começando à meia noite. Em pouco tempo o grupo, enquanto tentava se abrigar do vento frio e cortante, se juntou para aguardar ansioso a comida quente preparada por um dos guias.

Não consigo imaginar que algum restaurante do mundo consiga fazer um jantar tão bom quanto aquela sopa com miojo, seguida por uma rodada de purê de batatas (daqueles de mistura mesmo) com salsichas e um mate de coca para arrematar, tudo bem quentinho e com uma belíssima paisagem ao nosso redor. Coisas da montanha...

Acordamos de madrugada, botei todas as camadas de roupa disponíveis e após mais uma rodada de mate de coca saímos em um longo ziguezague rumo ao cume apenas carregando câmera, água e um pouco de comida que praticamente não eram consumidos. Uma das francesas do grupo, sentindo os efeitos da altitude preferiu ficar no acampamento e, já durante a subida, um casal de holandeses também precisou voltar pelos mesmos motivos. Subi bem devagar, pois além sentir o cansaço, não queria gastar minhas energias antes de garantir o cume e também precisava parar para checar minha glicemia de vez em quando. O sol começou a nascer do outro lado do Misti e sobre Arequipa vimos sua colossal sombra triangular projetada. Mais algumas horas de ziguezague sofrido e alcançamos borda da cratera, mas, apesar de impressionante, ainda não havíamos chegado ao cume. Este se situava em outro ponto da borda, não muito longe dali e era marcado por uma grande cruz de ferro que já podia ser vista e nos atraía como um imã. Agora já não havia como parar, pois a visão do cume nos motivava cada vez mais a subida feita a passos de formiga. Atravessamos com muito cuidado uma rampa de gelo e pouco depois, finalmente, cheguei ao cume do Misti! Ainda eram as primeiras horas de uma belíssima e ensolarada manhã e ao nosso redor nos observavam outras montanhas nevadas, como o Pichu-Pichu e o Chachani. Um pouco abaixo estava a cinza cratera do Misti e bem lá embaixo a branca Arequipa. Fotos, cumprimentos e descanso.

A descida desse vulcão me impressionou muito, pois não precisava ser feita no mesmo ziguezague da subida e sim rápida e diretamente para baixo pelas fofas encostas de cinzas. A cada passo dado para baixo, tudo ao seu redor se movimenta ao mesmo tempo e você vai deslizando célere junto com cinzas e pedras como em uma esteira rolante. Se a cansativa subida ao cume durou cerca de 7 horas, foi necessário apenas pouco mais de uma hora (!) para baixarmos de volta ao acampamento, aonde chegamos por volta das 9:30 da manhã. Enquanto o resto do grupo chegava aos poucos, eu aproveitei para tirar as roupas de frio e esquentar ao sol, tirando também os sapatos para verificar o estado dos meus pés que haviam estado dormentes pelo frio durante toda a subida. Como todos os dedos estavam em seus lugares, pude me dedicar com tranqüilidade ao farnel não comido e à arrumação das coisas para a segunda parte da descida.

Então, nesta mesma tarde eu já estava em Arequipa, almoçando na Plaza de Armas sob o olhar camarada do Misti, já com a passagem de ônibus que me largaria em Cusco na madrugada seguinte.

Nesta terceira etapa da viagem reencontrei o Godinho, mas não pude ir com ele a Machu Pichu. Apesar do inegável interesse histórico e turístico dessa cidade, fui me convencendo que esse programa não teria valido a pena por ser muito pasteurizado, caro e lotado de turistas, tendo sido bem melhor a sua troca pelo Misti (o que me lembrou daquela famosa fábula da “raposa e as uvas”). Mas de qualquer forma, com o espírito leve, pude visitar Saqsayhuaman, Puca-Pucara e Tambomachay de bicicleta e ainda passear por Pisac, que também são impressionantes exemplos da arquitetura inca (e bem mais baratos que Machu Pichu!).

Surpreendeu-me descobrir nesse país andino, e em outros que visitaria mais tarde, tanta riqueza cultural e histórica, mescladas em um relevo e natureza tão diferentes dos brasileiros, pois pouco me haviam ensinado no colégio sobre a história de nossos vizinhos.

Essa viagem, com o deslumbramento de ver pela primeira vez montanhas nevadas na cordilheira dos Andes, e particularmente a subida ao Misti, transformaram a curiosidade que eu tinha pelos Andes em um gosto que tive a sorte de repetir outras vezes nos dois anos seguintes, sempre com boas descobertas e acompanhado por amigos da Unicerj.


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