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Quarta-feira, 24 de abril de 2024

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Boletim n°10 - Dez. 2005
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E essa solidariedade é a própria vida

Em 20 de fevereiro de 2005.

Não tenho interesse de compor aqui um texto do tipo "Meu querido diário" com muito sentimentalismo. Tampouco me interessaria enfeitá-lo para compor “As minhas memórias”. Mas seguindo a cultura do auto-conhecimento, busco relatar em palavras experiências importantes, boas ou ruins e que trazem algum ensinamento importante.

Este fato surpreendeu-me pelo que causou em meu interior e na minha maneira de ver o mundo; além de ter-me deixado surpresa pela minha reação.

Tentarei narrar o que aconteceu no domingo dia 20 de fevereiro de 2005. Não sei se recordarei todos os nomes ou situações, e talvez nem seja justo citar alguns dada a importância que todos tiveram.

Já acostumada com a sobrevivência nas selvas cosmopolitas onde vivi, não me passava outra atitude que não fosse extrapolar meus limites para chegar ao objetivo o mais rápido possível. Ou que ao menos eu não devesse incomodar ninguém com minhas limitações pois, na minha concepção, o primeiro pensamento de todos seria livrar-se daqueles que não apresentassem bom rendimento. Tentei acompanhar o grupo da frente. Forcei um ritmo que não tinha até que não agüentei. Enquanto parava para recobrar o fôlego algumas pessoas me passavam na trilha.

E assim foi até que encontrei os Guias que fechavam a trilha. Sem estímulo para prosseguir, meu pensamento foi desistir naquele instante. “Posso retornar com o dono do cachorro Pierre”, disse eu então àqueles que estavam comigo. Para minha surpresa, em momento algum ouvi “Desista!” ou “Volte!”. Da primeira vez eu ouvi meio incrédula um “Vamos devagar que você consegue!”. Por várias vezes parava sem conseguir puxar o ar para os meus pulmões, já exausta de uma subida que não conhecia e com muita vontade de voltar, pensando numa pergunta talvez já conhecida de alguns iniciantes: “Pra quê eu inventei isso?”.

Não podia acreditar que aquelas vozes que diziam para eu continuar, ingerir um pouco d’água, dar passadas curtas, que evitasse parar para não quebrar o ritmo e que tivesse paciência; fossem para uma pessoa como eu, desconhecida de todos eles e acostumada com o pensamento individualista que a sociedade competitiva nos impõe. Dias antes tomara conhecimento de uma atividade semelhante onde havia contador de passos, verificador de tempo e alguém que sempre gritava: “Vamos! Estamos perdendo pontos!”. Longe de mim criticar qualquer um que participe de alguma atividade assim. Mas para a minha condição de recém operada, sem condicionamento físico e que só desejava partilhar da beleza do local e respirar ar puro, este pensamento mais atrapalhava que ajudava.

Quando da milésima vez que eu parava já sem forças (a minha mochila já havia sido partilhada entre os que me acompanhavam), eu ouvi uma frase que não mais esquecerei: “Vamos chegar ao topo todos juntos. Essa é uma atividade do grupo”. Foi então que eu percebi que estava sendo egoísta em querer desistir. Não se tratava mais de um fracasso individual se eu não conseguisse chegar. Tratava-se de uma perda do grupo. Dos Guias e daqueles que me acompanharam até então. E meu pensamento egocêntrico de que eu ia atrasar o passeio deles e limitar a contemplação da beleza do local era algo que me envergonhava naquele momento. Foi então que começou a chover.

Chegamos na Praça da Bandeira e um grupo se preparava para tentar subir enfrentando a chuva. Sabia que eu não teria condições sem ao menos conhecer a dificuldade que seria. Alguém resolveu ficar e eu aproveitei esta oportunidade. Descansei o que podia para enfrentar a descida. No espaço de tempo em que eu descansava, ouvia histórias engraçadas, um bom humor que nem me fazia pensar no que enfrentara até então. Havia esquecido tudo! E aquele lugar, mesmo com chuva e lama, me pareceu o melhor do mundo!

A descida foi fantástica. Não tinha mais forças, minhas pernas tremiam muito e eu não conseguia me apoiar em nada. Disse até “Vocês não têm idéia de como eu estou” e ouvi: “Todos aqui já passaram por isso”, “Isso é bom pois daqui a algum tempo você poderá apoiar outros iniciantes em suas dificuldades”. Mais uma vez meu pensamento individualista que buscava explicações para justificar o meu fraco rendimento.

Mas o mais interessante ainda estava por vir. Como era esperado, fui ficando para trás do grupo. E nunca sozinha. Quando chegamos ao fim da trilha, todos se cumprimentaram, ainda frustrados por causa da chuva haver impedido o objetivo final de chegar ao topo da Pedra da Gávea, mas com o mesmo entusiasmo do início da caminhada. Nunca havia visto tal cena. Pessoas que não me conheciam me cumprimentaram, num espírito coletivo de cooperação, por pertencer ao grupo, por ter atingido um objetivo comum. Cumprimentos sinceros que há muito não via.

Fui de carona para casa com alguém que também até então eu não conhecia. E não parava de pensar em um texto que havia lido há muito e que dizia que “o indivíduo relaciona-se com o todo e o todo é o conjunto de indivíduos”. Parece uma frase solta se vista sem contexto. Mas como não encontrava exemplos de solidariedade humana que não fosse aquela vista entre classes (mais comum próximos às festas de fim de ano) ou nas atividades de voluntariado (também como um outro mundo à parte), estava diante de algo que não conhecia e que sempre havia buscado entre pessoas diferentes. Tentava entender o porquê da palavra União.

Quando cheguei em casa, desatei em um choro inexplicável. Talvez não consiga descrever o que senti. Era um esgotamento físico que me trazia imensa felicidade. Que me reportava às palavras de apoio que ouvira e que me fazia repensar o conceito de solidariedade. Essa solidariedade que é a própria vida. Que permite cooperação e a verdadeira superação: a dos estereótipos criados pela maciça sociedade na luta pela sobrevivência.

Tenho certeza de que aquelas lágrimas tornaram-se um marco em minha existência. A partir dali traçou-se o meu recomeço, a minha nova chance, o viver de novo. Baseada no preceito de pessoas que ainda não conheço, mas que verdadeiramente sabem o sentido da contemplação e da superação de limites.

Ismenia Blavatsky


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